No começo era só uma caminhada descalça na beira da água. Uma onda bateu no tornozelo, e no segundo seguinte, o grito. A dor veio como um choque, agudo e paralisante. O motivo? Um animal que pouca gente vê, mas que está presente em quase todo o litoral brasileiro: a arraia-prego. Discreta, camuflada e silenciosa, essa espécie representa um dos maiores riscos para quem entra no mar sem prestar atenção onde pisa.
Neste texto, você vai entender por que a arraia-prego é um perigo tão comum quanto invisível nas praias, como se proteger e o que fazer em caso de acidente.
O que é a arraia-prego?
A arraia-prego (Dasyatis hypostigma) é uma das várias espécies de arraias que habitam águas tropicais e subtropicais da costa brasileira. O nome “prego” vem da aparência de seu ferrão — longo, rígido e pontiagudo como um prego enferrujado. Ele fica localizado na parte superior da cauda e é usado como defesa, não ataque.
Seu corpo achatado e de coloração acinzentada ou amarelada permite que se camufle perfeitamente na areia do fundo do mar, onde costuma ficar parcialmente enterrada à espera de pequenos crustáceos, moluscos e peixes para se alimentar.
Mas essa camuflagem que a protege de predadores também é o que a torna perigosa para os banhistas: muitas vezes, a arraia-prego está ali, a poucos centímetros dos pés de quem entra no mar, sem que ninguém perceba.
Onde ela é mais comum no Brasil?
A arraia-prego pode ser encontrada em quase toda a costa brasileira, do Rio Grande do Sul ao Amapá, mas é especialmente frequente em praias de águas calmas, mornas e de fundo arenoso, como:
- Litoral de São Paulo (Ubatuba, Santos, Ilhabela)
- Rio de Janeiro (Região dos Lagos, Baía de Guanabara)
- Bahia (Salvador, Ilhéus, Porto Seguro)
- Espírito Santo e Pernambuco (áreas menos urbanizadas)
Durante o verão, sua presença aumenta nas regiões mais rasas, justamente onde as famílias costumam entrar para brincar com as crianças.
Como ocorrem os acidentes?
A maioria dos acidentes com arraias ocorre quando a pessoa pisa acidentalmente sobre o animal, que se sente ameaçado e reage enfiando o ferrão — com movimentos rápidos da cauda, como um chicote. Esse ferrão pode atravessar o pé, o tornozelo ou a panturrilha, e ainda libera uma toxina extremamente dolorosa.
Diferente das águas-vivas, que causam queimaduras na pele, a picada da arraia é uma perfuração profunda, muitas vezes com sangramento e dor intensa. O veneno é termolábil, ou seja, se degrada com calor, mas até isso acontecer, o sofrimento pode ser insuportável.
Sintomas após a picada da arraia-prego
Os principais sintomas incluem:
- Dor súbita, intensa e pulsante
- Inchaço e vermelhidão ao redor do local
- Sangramento abundante
- Náusea, tontura ou desmaios em casos mais graves
- Infecção local, se não houver limpeza adequada
Em alguns casos, fragmentos do ferrão podem ficar presos na pele, dificultando a cicatrização.
O que fazer em caso de acidente?
Se você (ou alguém próximo) for atingido por uma arraia-prego, siga estas orientações imediatamente:
- Saia da água com cuidado e procure ajuda.
- Lave o ferimento com água do mar limpa, nunca água doce (que pode aumentar a dor).
- Mergulhe o local em água quente (de 40 a 45°C) por pelo menos 30 minutos. O calor ajuda a neutralizar o veneno.
- Não tente retirar o ferrão com as mãos. Vá até uma unidade de pronto atendimento para que seja feita a remoção segura e avaliação médica.
- Não use amônia, álcool ou urina — mitos populares que podem agravar o quadro.
O tratamento pode incluir antibióticos, analgésicos e, em alguns casos, cirurgia.
Como se proteger da arraia-prego?
Apesar de todo esse perigo, é possível se prevenir com atitudes simples:
- Caminhe arrastando os pés na água. Esse movimento espanta as arraias antes do contato.
- Use calçados aquáticos, como papetes de neoprene, que oferecem alguma proteção em caso de acidente.
- Evite áreas rasas com muita vegetação ou fundo de areia fofa sem visibilidade.
- Pergunte aos moradores locais sobre a presença de arraias — pescadores costumam saber exatamente onde elas se concentram.
Esses cuidados devem ser redobrados ao final da tarde ou início da manhã, quando as arraias estão mais ativas.
O invisível que mora onde a gente relaxa
A praia é um espaço de lazer, descanso e conexão com a natureza. Mas essa mesma natureza carrega riscos que não podemos ignorar. A arraia-prego não é agressiva, nem maldosa. Ela apenas reage a uma ameaça, como qualquer ser vivo. Entender o comportamento desse animal é o primeiro passo para evitar acidentes e respeitar seu espaço.
Ao arrastar os pés, usar sapatos e prestar atenção onde pisa, você não só se protege — você compartilha o ambiente com consciência. Porque o perigo, neste caso, não é o animal. É a nossa pressa em esquecer que o mar é casa de muitos.