Por que usar o celular durante as refeições muda a saciedade e confunde o corpo
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Sentar à mesa com o celular na mão virou hábito automático para muita gente — e o efeito disso vai muito além da distração. O uso do celular durante as refeições pode interferir diretamente na forma como o corpo entende a saciedade, bagunçando o sistema digestivo e até estimulando o consumo exagerado sem que a pessoa perceba. Mas como exatamente isso acontece? E por que um gesto tão simples está impactando a saúde de forma tão silenciosa?

O celular durante as refeições e a conexão com a mente distraída

Ao usar o celular durante as refeições, o cérebro entra em um estado conhecido como “atenção dividida”. Isso significa que ele precisa processar, ao mesmo tempo, os estímulos do conteúdo na tela e as sensações físicas associadas ao ato de comer. Só que o sistema nervoso central não foi projetado para gerenciar essas duas tarefas com a mesma eficiência — e algo sempre sai prejudicado.

No caso da alimentação, o que se perde é a percepção consciente da saciedade. Ou seja: comendo distraído, você não registra direito os sinais que o estômago envia ao cérebro informando que já está satisfeito. O resultado? Mastigação acelerada, porções maiores e, muitas vezes, ingestão desnecessária de calorias.

Por que o corpo se confunde com tanta distração

A digestão começa antes mesmo do primeiro garfo — ela é ativada pelo olfato, visão, mastigação e até pelo ambiente. Quando o foco está no celular, esses estímulos não são devidamente registrados. A produção de enzimas digestivas, a liberação de hormônios de saciedade como a leptina e a grelina, e até o peristaltismo intestinal (os movimentos do intestino) são impactados negativamente.

Um estudo da Universidade de Sussex, no Reino Unido, mostrou que pessoas que assistem vídeos ou jogam no celular enquanto comem chegam a consumir 15% a mais de alimentos do que aquelas que mantêm atenção plena na refeição. O fenômeno é conhecido como mindless eating — comer sem perceber, sem saborear, sem limite.

Hábitos do interior e o papel do celular como companhia silenciosa

Nas cidades do interior, onde a rotina costuma ser mais tranquila e as refeições, momentos importantes de convivência, o celular entrou sorrateiramente como companhia de quem almoça ou janta sozinho. É comum ver pessoas em restaurantes populares ou em casa, sentadas à mesa com o prato em uma mão e o telefone na outra.

Esse comportamento, embora pareça inofensivo, reforça um ciclo perigoso: menos atenção ao alimento, mais ansiedade ao longo do dia e menor percepção corporal. A mente se acostuma a não “estar presente” durante a alimentação — e isso se reflete até mesmo no prazer que se sente ao comer. Não é à toa que muitas pessoas relatam sentir fome pouco tempo depois de uma refeição aparentemente satisfatória.

Celular altera mastigação, digestão e até o paladar

O uso do celular durante as refeições também modifica o ritmo da mastigação. Com os olhos na tela, mastiga-se menos vezes, mais rápido e com menos saliva. Isso torna a digestão mais difícil e pode provocar inchaço, refluxo e sensação de estufamento logo após a refeição.

Além disso, o foco na tela diminui o envolvimento com os sabores. Você pode estar comendo uma comida bem temperada, cheia de camadas de sabor, mas se está assistindo a um vídeo no TikTok, o cérebro não processa essa complexidade. Isso pode levar a uma busca inconsciente por alimentos mais intensos ou gordurosos — simplesmente porque o paladar está entorpecido pela distração.

Estratégias realistas para quem não consegue largar o celular

Sabendo que o celular já faz parte do cotidiano de muita gente, especialmente em pausas rápidas ou almoços solitários, vale pensar em pequenas mudanças sem tom radical. Por exemplo, estabelecer como regra pessoal deixar o telefone de lado nos primeiros 10 minutos da refeição já ajuda o corpo a entrar no ritmo adequado.

Outra alternativa é usar o tempo das refeições como momento de reconexão. Prestar atenção no cheiro da comida, na temperatura, no som da mastigação — tudo isso ajuda o cérebro a entender que aquele é um momento de autocuidado, e não apenas uma tarefa mecânica entre um scroll e outro.

Comer distraído custa caro para o bem-estar

O impacto do celular durante as refeições não é só digestivo. Ele também afeta o equilíbrio emocional. Comer é um ato de presença. Quando feito com atenção, nutre o corpo e também a mente. Quando se transforma em mais uma atividade multitarefa, perde sua função reguladora — tanto física quanto emocional.

O corpo humano foi desenhado para operar com ritmo e percepção. Quando a tecnologia impõe um ritmo fragmentado e excessivamente rápido até no ato de comer, surgem distúrbios alimentares silenciosos, baixa energia, mau humor e desequilíbrio hormonal.

O que aprendemos observando quem come sem distrações

Pessoas que fazem refeições longe do celular, mesmo que sozinhas, relatam maior sensação de saciedade, mais prazer ao comer e menor compulsão ao longo do dia. Esses relatos vêm tanto de quem mora em grandes centros quanto de moradores de pequenas cidades que mantêm o hábito de comer olhando para o prato, não para a tela.

Não se trata de romantizar o passado ou demonizar a tecnologia. Mas sim de recuperar um espaço de atenção que o corpo agradece. Um espaço onde o ato de comer volta a ser um momento de escuta, de autocuidado e de percepção.