DATA ESPECIAL

No 'Dia Mundial de Conscientização do Autismo' saiba mais sobre o acolhimento na Serra Gaúcha

Data é celebrada nesta quarta (2); reportagem conta histórias da Amafa, em Farroupilha, e do Esporte Clube Juventude

Foto: Divulgação/ Esporte Clube Juventude
Foto: Divulgação/ Esporte Clube Juventude

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo é, desde 2007, comemorado no dia 2 de abril. Anualmente, nesta data, o objetivo é difundir informações para a população sobre o autismo e assim reduzir a discriminação e o preconceito que cercam as pessoas afetadas pelo transtorno.

O autismo é representado por vários símbolos, como o quebra-cabeça, o girassol e a cor azul, frequentemente associada ao autismo, por predominância do transtorno no sexo masculino.

A reportagem do Portal Leouve visitou uma das principais instituições voltada ao acolhimento a pessoas com autismo no Rio Grande do Sul, a Amafa, em Farroupilha, e conheceu uma iniciativa realizada no Esporte Clube Juventude, em Caxias do Sul, a fim de mostrar como são realizados os processos que envolvem amor, dedicação, carinho e respeito.

Amafa, uma história de acolhimento e amor com Farroupilha e região

Em Farroupilha, a Associação de Pais e Amigos do Autista de Farroupilha (Amafa) é referência para a região no atendimento especializado a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Criada em 2002, a unidade está localizada no bairro Vicentina e hoje atende 120 pessoas, com idades entre 3 a 59 anos. Os serviços incluem equoterapia, oficinas com nutricionistas, sala sensorial e suporte psicossocial para famílias.

A reportagem do Portal Leouve visitou a instituição e conversou com a diretora-coordenadora, Aline da Rosa, e a professora Anelise de Almeida Gajardo. Elas contaram como é a rotina da Amafa, desde o contato com as pessoas atendidas, até o sentimento de poder contribuir com a formação de pessoas com TEA.

Associação de Pais e Amigos do Autista de Farroupilha (Foto: Eduardo Garcia/Grupo RSCOM)

Aline da Rosa, 33 anos, acumula quase uma década de serviços à Amafa. Ela comentou sobre como o trabalho está sendo desenvolvido, além de fazer uma avaliação sobre o momento da instituição.

“Hoje, a Amafa vem em um patamar diferente. A gente vê grandes avanços no atendimento para nossas crianças, adolescentes e adultos. O que temos de dificuldade é uma fila de espera que cada vez aumenta mais. Atualmente, são 50 pessoas nessa fila, aguardando atendimento, e sabemos que esse aguardo é muito difícil para essas famílias. É algo que nos entristece, mas estamos buscando recursos para construir mais seis salas que a gente vai proporcionar esse atendimento”, revelou Aline.

A construção das seis salas de aula, que vão acolher mais 50 pessoas, deve ficar pronta na metade deste ano. Aline salientou também que a forma de atendimento deverá ser repensada, já que cada vez mais pessoas vão buscar acolhimento na Amafa.

Anelise (E) e Aline na Amafa (Foto: Eduardo Garcia/Grupo RSCOM)

A maior parte dos recursos são oriundos da Prefeitura de Farroupilha. Existem ainda convênios com as cidades de Carlos Barbosa e Nova Roma do Sul. Doações de pessoas físicas, empresas e recebimento de emendas parlamentares também são fundamentais para que os processos se mantenham funcionando plenamente.

“Posso dizer que sou muito feliz, porque aqui é um trabalho muito diferente. Aqui a gente sabe o que é amor verdadeiro. Nenhum dia é igual e nem o que eu planejo consigo fazer, mas a gente recebe o amor deles que é verdadeiro todos os dias. Aqui tem muito sentimento. É amor, compaixão, empatia. Todas as pessoas que trabalham aqui, que são atendidas, a gente tenta acolher da melhor forma, e de certa forma, eles acolhem a gente com esse carinho”, finalizou.

Com Anelise, Aline e demais voluntários, mais 50 pessoas devem ser atendidas na Amafa após a construção de seis salas (Foto: Eduardo Garcia/Grupo RSCOM)

Anelise de Almeida Gajardo, 53 anos, tem um laço muito forte com a Amafa. Ela foi diagnosticada com autismo depois de começar a ajudar com os trabalhos na instituição. Ela conta que isso foi possível com a participação de profissionais capacitados

“Esse diagnóstico só foi possível porque eu vim trabalhar na Amafa e encontrei profissionais competentes. Com o avanço da ciência mudaram os critérios, anos atrás quando eu era criança o diagnóstico não seria possível. Quando eu vim trabalhar aqui, eu fui estudar para compreender o que era o espectro autista e como trabalhar com as pessoas que estão aqui. Com o tempo comecei a desconfiar que eu poderia estar no espectro, eu procurei uma profissional que fechou meu diagnóstico”, contou ela.

Natural de Caxias do Sul e moradora de Farroupilha há 15 anos, ela, que é professora desde 1992, se emocionou ao falar sobre a representatividade da Amafa em sua vida.

“Eu me emociono no sentido em que, sem as adaptações, o suporte que eu recebo da equipe técnica, eu não conseguiria estar aqui. Eu estou com os pares, com as pessoas, crianças e adultos com o mesmo diagnóstico, então existe uma conexão diferente entre nós, e eu me sinto acolhida”, afirmou.

Por fim, ela passou uma mensagem para a sociedade, que muitas vezes tem dificuldade em acolher pessoas diferentes:

“Eu acho que a gente vive em uma sociedade muito capacitista, capacitismo é o preconceito das pessoas com deficiência, onde as pessoas acham que elas são inferiores, que não são capazes. Eu falo por mim, as pessoas olham e falo ‘mas você não é autista, porque tu fala, não tem cara de autista’. Autista não tem cara, cada autista é único do seu jeito”, explicou ela.

Pessoas entre 3 a 59 anos são atendidas pela instituição (Foto: Eduardo Garcia/Grupo RSCOM)-

Os jaconistas

Alfredo Jaconi conta com camarote destinado aos autistas. Foto: Divulgação/E.C.Juventude

A hipersensibilidade com o barulho pode ser umas das características de pessoas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Empático com a causa, há cerca de dois anos, o Esporte Clube Juventude destinou um camarote no Estádio Alfredo Jaconi para os torcedores jaconeiros com autismo, os chamados jaconistas.

Fabiano Pizzeta, diretor de marketing e ações sociais do clube, conta que o camarote destinado as crianças e adolescentes com TEA, recentemente, foi ampliado e comporta até 20 pessoas; 10 autistas e seus respectivos acompanhantes. Localizado em um local de fácil acesso em uma área mais tranquila, o espaço adaptado deve ainda receber melhorias a partir do segundo semestre. No local, os torcedores recebem protetores auriculares e uma camiseta, na primeira participação.

A ida ao camarote jaconista necessita de inscrição pelo site do clube. Um breve cadastro habilita a participação nos sorteios que são realizados, uma vez que a procura é grande. O diretor também relata que o Juventude não faz a cobrança de ingressos no espaço. Além disso, revela que o camarote tem proporcionado maior confiança para os frequentadores. Muitos que começaram indo ao local com medo do barulho e agito, acabaram gostando e passaram a frequentar as arquibancadas.

Dúvidas ou mais informações sobre o serviço podem ser acessadas no site oficial do Juventude ou diretamente no Instagram –Jaconistas.

Abraço a causa

Foto: Arquivo Pessoal

Diretor do setor desde o final de 2019 e juventudista desde pequeno, Fabiano é pai de Murilo, 11 anos, que foi diagnosticado com autismo. Ele sempre teve dificuldades de levar o filho no estádio devido aos fogos e ao ambiente de barulho. Dentro do clube, com carta branca para executar ações e sabendo da realidade, trabalhou para implantar o projeto. Contextualiza que com o passar dos anos, a sociedade foi conhecendo mais sobre o assunto e passou a abraçar mais a causa.

“Hoje, existe uma movimentação muito grande da sociedade, que está começando a entender um pouco. Meu filho nasceu em 2013, lá atrás havia informação, mas sociedade não estava se movimentando e apta para aceitar e abraçar. A incidência de casos aumentou muito, tanto pelo maior número de diagnósticos quanto pelo aumento da população autista”, relata.

Fabiano ainda conta que a descoberta do caso do filho nunca foi um choque. Lembra que eram observadas algumas estereotipias e, quando procurou auxílio dos profissionais, o diagnóstico foi fechado de forma rápida. Ele destaca que cada vez mais vê que os espaços e atrações na região recebem bem e estão se preparando para o público autista.

Para nós foi tranquilo e entendemos que dentro daquilo que a gente já tinha de rotina com ele, algumas adaptações deveriam ser feitas, mas nada mais do que isso. Hoje, ele tem atividades normais com algumas adaptações e não limitações. E isso que eu vejo que há dentro da sociedade, uma aceitação maior dessa diversidade, de uma neurodivergência e não tratado como problema, algo que limite a vida dele. A gente fica muito feliz quando vê a sociedade e todo o movimento de abraçar essas crianças“, comemora.

Mas nem tudo são mil maravilhas. Fabiano comenta sobre um local que gostaria de levar mais o filho, mas ainda não consegue. Com casa de veraneio em Florianópolis, ele desejaria levar o Murilo à capital catarinense entre a época de Natal e Ano Novo. Contudo, o barulho dos fogos no período acaba limitando os momentos de comemoração. Como resultado, já há alguns anos, o réveillon na praia foi extinguido do calendário da família.

“Alguns autistas têm hipersensibilidade com o barulho, não consigo levar ele ver os fogos na praia. Ainda que tenham os fogos adaptados, tem gente que não está nem aí, por conta disso acabamos nos limitando nesses momentos de comemoração”, conta.

A questão é vista como um problema de uma sociedade que está em evolução e avançou bastante nos últimos anos em relação a causa, mas que ainda precisa progredir. Quem sabe, em um futuro próximo, Fabiano, o filho Murilo, e muitos outros autistas, possam comemorar novos avanços e direitos, assistindo um show de fogos de artifício silenciosos à beira-mar.

Fotos: Fernando Alves e Divulgação Esporte Clube Juventude