
Você já ouviu falar no repolho-skunk oriental? O nome pode soar como piada, mas essa planta existe — e mais: ela esquenta sozinha, exala um cheiro que lembra carniça e floresce quando a maioria está morrendo de frio. Para quem cultiva espécies exóticas ou tem curiosidade botânica, descobrir que algo assim pode nascer no seu quintal (ou quase) é desconcertante. Afinal, como uma planta que fede consegue atrair tanta atenção no mundo natural?
O que é o repolho-skunk oriental e por que ele fede tanto?
O repolho-skunk oriental, ou Symplocarpus renifolius, é parente próximo do repolho-skunk americano, conhecido pela habilidade rara de gerar calor. Durante o auge do inverno, quando o solo ainda está congelado, ele literalmente “esquenta” o próprio corpo floral — alcançando até 20 °C acima da temperatura ambiente — para derreter a neve ao redor e liberar seu odor característico. E aqui está o ponto-chave: o fedor.
Essa planta libera um cheiro muito parecido com carne podre ou animal em decomposição. A razão por trás disso é simples e inteligente: atrair insetos necrófagos, como moscas e besouros, que funcionam como polinizadores. O aroma ruim, nesse caso, é parte do truque de sobrevivência. Nada de perfume doce — o repolho-skunk prefere o grotesco, e funciona.
Por que ele floresce no inverno quando tudo está adormecido?
O comportamento fora de época do repolho-skunk oriental intriga até botânicos experientes. Enquanto a maioria das espécies entra em dormência, ele brota em pleno frio. Esse movimento é estratégico: ao florescer no inverno, ele evita a concorrência com outras plantas por polinizadores. E como ele próprio aquece seu “coração” floral, consegue manter o metabolismo ativo mesmo sob neve.
Na prática, isso o torna uma das poucas espécies capazes de desafiar o relógio biológico da natureza. Para quem vive em regiões frias ou acompanha a floração de plantas em ambientes controlados, entender o mecanismo do repolho-skunk é um verdadeiro quebra-cabeça que mistura termodinâmica com adaptação ecológica.
A curiosidade de colecionadores e o perigo da reprodução errada
Nos últimos anos, com o avanço das redes sociais, vídeos de plantas “malcheirosas” e exóticas viralizaram entre colecionadores. O repolho-skunk oriental entrou nesse radar. Algumas pessoas chegaram a tentar adaptar a planta ao clima brasileiro, especialmente em cidades serranas ou com inverno rigoroso. Mas há um detalhe que quase ninguém comenta: o solo.
O repolho-skunk não cresce bem em qualquer terreno. Ele exige solo ácido, encharcado e com bastante matéria orgânica em decomposição — uma mistura nada comum em jardins domésticos. Além disso, a reprodução por sementes é extremamente lenta, podendo levar anos até a planta florescer pela primeira vez. Ou seja, quem tenta cultivar sem o devido conhecimento pode acabar apenas com um vaso fedido e sem flor nenhuma.
Dá para cultivar no Brasil? E vale a pena?
A resposta curta é: sim, mas com restrições. Regiões do sul do Brasil, como a Serra Catarinense e partes do Paraná, têm clima frio e úmido que podem permitir testes de cultivo experimental — especialmente em estufas com controle de umidade e acidez do solo. Mas para a maioria das casas brasileiras, especialmente em cidades quentes ou secas, o repolho-skunk oriental dificilmente sobreviveria, mesmo com cuidados extremos.
Outro ponto importante: essa planta não é vendida em qualquer floricultura. Ela precisa de importação específica e, em alguns casos, de autorização para transporte. Então, antes de se empolgar com vídeos ou fotos, vale entender se faz sentido investir tempo e dinheiro em algo tão exótico — e fedorento.
Quando o feio e o estranho têm uma função nobre
Apesar de sua aparência grotesca e do cheiro incômodo, o repolho-skunk oriental ensina algo profundo sobre adaptação. Ele transforma a adversidade (o frio extremo) em oportunidade (floração exclusiva). Ele usa o que tem (calor interno e odor) para atrair o que precisa (insetos) sem depender de flores lindas ou aromas agradáveis.
Em um país onde a maioria dos jardineiros busca flores perfumadas e folhagens elegantes, o repolho-skunk surge como um lembrete desconcertante: a natureza não se preocupa em agradar nossos sentidos — ela quer eficiência. E às vezes, o que parece esquisito ou fora do padrão é exatamente o que funciona melhor.