Esse erro ao brincar com o cachorro pode aumentar ansiedade e estresse

É durante uma brincadeira inocente com o cachorro que muitos tutores, sem perceber, estão reforçando exatamente o comportamento que mais desejam evitar: a ansiedade. A cena parece inofensiva — o cão corre atrás da bolinha sem parar, late sem controle ou reage de forma exagerada a estímulos. Mas por trás desse momento de diversão, há um padrão repetido que pode estar elevando o nível de estresse do animal. A palavra-chave aqui não é “brincar menos”, mas sim “brincar certo”.

O erro mais comum ao brincar com o cachorro

Entre os hábitos mais praticados, o estímulo excessivo sem estrutura é um dos principais responsáveis por agravar quadros de ansiedade em cães. Jogos como o de jogar e buscar objetos, especialmente se feitos de maneira contínua e sem pausas, podem parecer positivos — afinal, o cachorro gasta energia, certo? Mas o que muitos não sabem é que esse tipo de brincadeira ativa o sistema de alerta do animal. Em vez de relaxar, o cérebro dele entra em um modo de excitação constante, semelhante ao que ocorre durante uma situação de fuga ou caça. Ou seja: em vez de aliviar o estresse, você pode estar alimentando-o.

Como esse padrão afeta o dia a dia do animal

Para cães que já apresentam sinais de ansiedade, como agitação constante, latidos em excesso, destruição de objetos ou dificuldades para dormir, esse tipo de estímulo reforça o comportamento. É como oferecer café para alguém que está tentando dormir. Isso explica por que muitos tutores relatam que, mesmo após longas brincadeiras, seus pets continuam inquietos, pedindo mais atenção ou apresentando comportamentos compulsivos. Em cidades do interior, onde o ritmo costuma ser mais tranquilo, esse contraste entre o ambiente e a agitação do cão pode se tornar ainda mais evidente.

Entendendo o comportamento natural dos cães

A natureza do cachorro envolve ciclos de caça, exploração, descanso e socialização. Quando se repete insistentemente apenas a parte do “caçar” — como na busca obsessiva por brinquedos —, desrespeita-se esse equilíbrio. Ao contrário do que se pensa, um cão saudável precisa de pausas, de momentos de farejar, roer, mastigar, interagir e, claro, dormir. Muitos tutores do interior, que têm quintais ou espaços amplos, acreditam que o espaço compensa a ausência de estímulo mental adequado. Mas o cão precisa de mais do que correr: ele precisa processar.

Brincadeiras que acalmam em vez de agitar

Há alternativas simples e eficazes para transformar o momento da brincadeira em um ritual de bem-estar. Atividades que envolvem o faro, como esconder petiscos em brinquedos interativos ou espalhados pela casa, são mais próximas do comportamento natural dos cães. Brinquedos recheáveis, mordedores com texturas diferentes e até pequenas sessões de comandos com recompensas ajudam a trabalhar o foco, a paciência e o vínculo entre tutor e pet.

Essas opções são especialmente úteis para quem vive em cidades pequenas, onde o ambiente favorece um ritmo mais tranquilo. Ao invés de induzir o cão a um estado de agitação, essas atividades o ajudam a “resolver” problemas e relaxar mentalmente — o que, na prática, cansa muito mais do que correr atrás de uma bolinha 20 vezes seguidas.

A importância das pausas e da previsibilidade

Outro ponto que passa despercebido é a ausência de estrutura nas brincadeiras. Cães precisam de previsibilidade. Quando a brincadeira começa e termina de forma aleatória, o animal não sabe o que esperar. Isso gera frustração e alimenta o comportamento ansioso. Criar um pequeno ritual — como começar com comandos simples, depois brincar e encerrar com uma recompensa seguida de descanso — ajuda a organizar o cérebro do cão. Ele entende o que está acontecendo e se sente mais seguro.

Tutores mais atentos notam que os cachorros ficam mais calmos quando sabem que existe um momento para tudo: para comer, brincar, passear e descansar. E essa organização começa justamente nas interações diárias, como as brincadeiras.

Brincar com o cachorro é mais sobre qualidade do que quantidade

A ideia de que “quanto mais cansado o cachorro, melhor” precisa ser revista. O cansaço físico nem sempre é sinônimo de equilíbrio emocional. Um cão pode estar exausto, mas ainda assim mentalmente agitado. Já um cão que foi desafiado de forma inteligente — usando o faro, resolvendo pequenos desafios, interagindo com calma — tende a relaxar por completo após a atividade.

Isso se reflete no dia a dia. Animais mais calmos interagem melhor com visitas, não destroem objetos, dormem melhor e tendem a se relacionar com mais confiança com o ambiente. Pequenas mudanças no jeito de brincar podem gerar transformações visíveis no comportamento geral do pet.

Repensando o cuidado com o cachorro

Ao observar esse tipo de padrão, a pergunta que fica é: será que estamos brincando com o cachorro para o bem dele ou para suprir uma expectativa nossa? Muitas vezes, buscamos a reação exagerada do animal como sinal de diversão, quando na verdade estamos incentivando um desequilíbrio emocional.

A consciência sobre isso não exige grandes mudanças. Apenas atenção e respeito ao ritmo do animal. Com ajustes simples no dia a dia, é possível transformar as brincadeiras em momentos de conexão profunda, aprendizado e, principalmente, equilíbrio. O cachorro agradece — com silêncio, descanso e um olhar mais tranquilo.