
O uso de medicamentos popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras” cresceu de forma acelerada nos últimos anos no Brasil e também na Serra Gaúcha, impulsionado pela eficácia na perda de peso, maior prevalência da obesidade e divulgação nas redes sociais. O tema ganhou destaque recente após apreensões de produtos irregulares na região e novos dados de monitoramento nacional de eventos adversos.
Na Serra Gaúcha, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu, no fim do ano passado, canetas emagrecedoras em Caxias do Sul. Os medicamentos, vindos do Paraguai, estavam escondidos em uma sacola térmica dentro de um veículo. Segundo a corporação, receituários falsificados foram apresentados para justificar a compra no país vizinho.
De acordo com a médica endocrinologista Dra. Bruna Menna Barreto, que atende em Garibaldi junto ao Centro de Especialidades do Hospital Beneficente São Pedro, o crescimento da procura segue uma tendência mundial.

“O crescimento foi impulsionado por três fatores principais: aumento global da obesidade, eficácia comprovada na perda de peso e a divulgação intensa nas redes sociais. Quando um medicamento demonstra resultados consistentes e visíveis, ele naturalmente desperta grande interesse”, afirma.
O Uso e a Indicação das Canetas Emagrecedoras
Esses medicamentos foram desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2. Segundo a especialista, o uso para emagrecimento ganhou espaço após estudos clínicos demonstrarem perda de peso significativa e sustentada, levando à aprovação para tratamento da obesidade em pacientes com indicação clínica.
“A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, e essas medicações fazem parte do tratamento quando bem indicadas”, explica.
A indicação médica ocorre para pacientes com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m² ou acima de 27 kg/m² associado a doenças como diabetes, hipertensão ou apneia do sono. O uso fora desses critérios não é recomendado.
“Medicamento não é recurso estético, é ferramenta terapêutica. O uso sem critério médico expõe o paciente a riscos desnecessários”, destaca a endocrinologista.
Riscos e Efeitos Colaterais
Entre os efeitos colaterais mais comuns estão náuseas, vômitos, alterações intestinais, refluxo e sensação de empachamento. Sem acompanhamento profissional, os riscos podem aumentar.
“Pode haver perda excessiva de massa muscular, desnutrição, distúrbios metabólicos e atraso no diagnóstico de efeitos adversos mais graves”, alerta.
A médica também chama atenção para a banalização do uso e para a influência das redes sociais.
“Muitas vezes são divulgados apenas os resultados estéticos, sem mencionar riscos, critérios médicos ou contraindicações. Houve uma popularização acelerada e isso preocupa porque estamos falando de medicamentos sérios, com benefícios cardiometabólicos importantes”, afirma.
Atenção aos Dados e à Fiscalização
Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que, entre dezembro de 2018 e dezembro de 2025, foram registradas 2.436 notificações de eventos adversos relacionados aos princípios ativos semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida no sistema Vigimed. No mesmo período, houve 65 notificações de mortes suspeitas associadas ao uso desses medicamentos. A agência ressalta que os registros não estabelecem relação causal direta e dependem de investigação clínica completa.
A Anvisa também alerta para desafios na fiscalização, especialmente na venda online. Segundo a endocrinologista, alguns sinais podem indicar produtos falsificados ou irregulares, como preços muito abaixo do mercado, venda sem receita, embalagem com erros, ausência de registro sanitário e falta de refrigeração adequada.
“Minha orientação é clara: não compre. Medicamento deve ser prescrito após avaliação médica individualizada e adquirido em farmácias regularizadas. Saúde não pode ser tratada como tendência ou produto de internet”, conclui.
A especialista reforça que o medicamento não substitui mudanças de hábitos. “Sem alimentação adequada, atividade física e acompanhamento contínuo, o resultado não se sustenta”, afirma.