Foto: Veículo com emblemas falsos utilizado no assalto ao Aeroporto Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul. (Marcelo Oliveira/Grupo RSCOM)
Foto: Veículo com emblemas falsos utilizado no assalto ao Aeroporto Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul. (Marcelo Oliveira/Grupo RSCOM)

A 3ª Vara Federal de Passo Fundo condenou 15 pessoas pela participação no assalto ao avião pagador no Aeroporto Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, crime ocorrido em 19 de junho de 2024. A sentença, proferida nesta quinta-feira (12), soma mais de 520 anos de reclusão. Algumas penas individuais ultrapassam cinco décadas — a maior delas chega a 64 anos, oito meses e um dia, em regime fechado.

Caxias do Sul e Rio Grande do Sul - Dos 17 indiciados na primeira fase daOperação Elísios, apenas dois não foram condenados. Os 15 réus responderam porlatrocínio, explosão, falsificação de símbolos e identidade, adulteração veicular, usurpação de função pública, posse de arma de uso restrito, lavagem de dinheiro e organização criminosa armada. Outros 22 investigados, alvos da segunda fase da operação, ainda aguardam julgamento.

Foto: PF/Divulgação

A decisão judicial baseou-se no robusto conjunto probatório reunido pela Polícia Federal. Laudos periciais confirmaram o uso de artefatos explosivos, veículos com placas e identificações adulteradas e armamento de uso restrito. Impressões digitais e exames genéticos coletados ao longo das investigações foram determinantes para vincular os condenados não apenas ao ataque em Caxias, mas também a outros crimes de grande repercussão.

De acordo com a investigação, o grupo mantinha conexões com organizações criminosas responsáveis por assaltos de grande porte no Brasil e no exterior. Perfil genético de integrantes da quadrilha associou-os a ações como o ataque à base da Prosegur, no Paraguai; o roubo de ouro no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP); e episódios de domínio de cidade em Ourinhos (SP) e Criciúma (SC) .

A organização criminosa utilizava viaturas falsificadas com emblemas da própria Polícia Federal, além de fardas e acessórios como giroflex. Os veículos ostentavam placas clonadas para despistar a fiscalização.

Os 11 minutos que paralisaram o aeroporto

A noite de 19 de junho de 2024 reuniu todos os elementos de um filme de ação. Por volta das 19h, três caminhonetes pretas — uma Frontier, uma Outlander e uma Santa Fé — aproximaram-se do Aeroporto Hugo Cantergiani. Os dois primeiros veículos ostentavam emblemas da Polícia Federal e giroflex no teto. O objetivo era enganar a vigilância e os funcionários do terminal. O terceiro veículo estacionou em frente ao portão 2, pronto para servir de retaguarda na fuga.

Dentro do sítio aeroportuário, uma aeronave King Air C90 Gti preparava-se para pousar. Transportava R$ 30 milhões. A ação começou às 19h27min. Nove criminosos fortemente armados renderam seguranças e fizeram três reféns. Os vigilantes foram obrigados a transferir os malotes de dinheiro para as caminhonetes.

A fuga, no entanto, não saiu como planejado. Uma equipe da Brigada Militar foi acionada e houve confronto armado na pista. O 2º sargento Fabiano Oliveira, 47 anos, da Força Tática do 12º BPM, foi atingido por um tiro de fuzil e morreu no local. Um dos criminosos, Silvio Wilton da Silva Costa, conhecido como Bin Laden, também caiu baleado.

Foto: Especial/Leouve

Na correria, os criminosos abandonaram a Frontier, que ficou para trás com R$ 15,6 milhões e o corpo do comparsa morto. Os oito assaltantes restantes fugiram na Santa Fé e na Outlander levando R$ 14,4 milhões.

O grupo seguiu até uma área rural do bairro Galópolis, na saída de Caxias. Lá, abandonaram os dois veículos e embarcaram em uma van caracterizada como transporte escolar. O estratagema funcionou: ninguém desconfiou. A van levou os criminosos até um sobrado em Farroupilha, onde permaneceram escondidos. Dois dias depois, começaram a deixar o Rio Grande do Sul com destino à região Centro-Oeste .

Foragidos e próximos passos

Apesar das condenações, a Polícia Federal ainda busca ao menos seis foragidos relacionados ao assalto. Entre eles estão Alex Santos Pereira e Josemir Matias da Silva — este último apontado como um dos principais financiadores da operação criminosa. Ambos integram a lista vermelha da Interpol e, segundo as autoridades, podem estar escondidos na Bolívia .

O Ministério Público Federal (MPF) também investiga a participação de um funcionário de uma empresa de transporte de valores, que teria repassado informações privilegiadas à quadrilha sobre a rota do dinheiro .

A Operação Elísios, que completa dois anos em junho, segue em andamento. Novas fases não estão descartadas.