(Foto: ONG Movimento Lipedema)
(Foto: ONG Movimento Lipedema)

A palavra que até poucos anos era praticamente desconhecida agora aparece com frequência nas redes sociais. Vídeos, relatos pessoais e conteúdos sobre tratamentos fizeram o lipedema ganhar visibilidade, mas também abriram espaço para informações incompletas e diagnósticos equivocados. Embora a internet tenha contribuído para popularizar o tema, especialistas alertam que a doença crônica ainda é subdiagnosticada e cercada de tabus, inclusive entre profissionais de saúde.

Descrito pela primeira vez em 1940 pelos médicos Allen e Hines, o lipedema é caracterizado pelo acúmulo anormal de gordura, principalmente em pernas e braços, associado à dor, sensibilidade e tendência a hematomas. A condição afeta majoritariamente mulheres e tem influência genética e hormonal. Apesar de antigo, o conhecimento científico avançou sobretudo na última década — cerca de 80% das publicações sobre o tema indexadas em bases científicas foram produzidas nos últimos dez anos.

Em 2022, a doença passou a ser oficialmente reconhecida na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), reforçando sua distinção em relação à obesidade. A gordura do lipedema costuma ser resistente à dieta e ao exercício e pode apresentar textura nodular, com interrupção abrupta nos tornozelos ou punhos, poupando mãos e pés — característica conhecida como “sinal do punho”.

Novo consenso internacional

Em janeiro de 2026, um grupo internacional de especialistas publicou o mais abrangente documento de consenso já elaborado sobre lipedema, com participação de profissionais de 19 países. O objetivo é padronizar critérios diagnósticos e orientar o tratamento em escala global.

O documento reforça que o lipedema é uma doença crônica distinta da obesidade, reconhece a dor como sintoma central e incapacitante, confirma que o diagnóstico é clínico — sem exame específico confirmatório — e defende abordagem multidisciplinar e individualizada. Também aponta lacunas científicas e a necessidade de mais pesquisas.

Na Serra Gaúcha

A ampliação do conhecimento sobre a doença também passa pela atuação de profissionais da saúde que pesquisam e divulgam o tema em diferentes regiões do país. Na Serra Gaúcha, esse movimento inclui o trabalho do cirurgião plástico Paulo Caruso, que atende em Garibaldi e em Porto Alegre e fundou o Grupo Gaúcho de Lipedema.

Formado em Medicina pela Universidade Católica de Pelotas, com residência em cirurgia geral no Hospital de Clínicas e especialização em cirurgia plástica no Hospital São Lucas da PUCRS — onde também realiza doutorado — o médico passou a direcionar parte da atuação ao tratamento do lipedema a partir de 2021.

Segundo ele, o aumento da procura por informações nos últimos anos está relacionado principalmente à maior divulgação nas redes sociais e ao reconhecimento científico mais recente da condição.

“O lipedema sempre existiu, mas era confundido com obesidade ou linfedema. Hoje há mais conhecimento e as pacientes conseguem identificar sintomas que antes eram ignorados”, afirma.

O cirurgião destaca que muitas mulheres chegam ao consultório após anos de tentativas frustradas de emagrecimento.

“É comum a paciente relatar que perdeu peso no corpo inteiro, mas as pernas continuam desproporcionais e doloridas. Isso é um sinal de alerta importante”, explica.

Sintomas e características da doença

De acordo com Caruso, além do aumento de volume desproporcional, alguns sinais clínicos ajudam a diferenciar o lipedema de outras condições:

“Dor ao toque, sensação de peso nas pernas, facilidade para hematomas e piora ao longo do dia são queixas frequentes. Outro ponto importante é que mãos e pés geralmente são poupados, o que cria um contraste na silhueta”, explica.

(Foto: Lipödem-Gesellschaft e.V)

O médico ressalta que a doença não está relacionada à falta de cuidado com o peso.


“Não é culpa da paciente. Muitas fazem dieta, atividade física, emagrecem no tronco, mas a gordura das pernas permanece. Isso gera frustração e sofrimento emocional”, diz.

Graus e progressão

O lipedema pode evoluir em diferentes estágios, com alterações progressivas no tecido adiposo. Segundo o cirurgião, reconhecer o grau da doença é fundamental para definir a abordagem terapêutica.


“No estágio inicial, a pele ainda é mais lisa, mas já existe dor e acúmulo de gordura. Com a progressão, surgem irregularidades, nódulos e aumento do volume. Nos casos mais avançados, pode haver comprometimento da mobilidade e associação com linfedema”, explica.

Ele destaca que a evolução varia entre pacientes.

“Nem todas vão progredir para estágios graves, mas sem tratamento adequado pode haver piora ao longo dos anos, principalmente em períodos hormonais como puberdade, gravidez ou menopausa.”

Arte: ONG Movimento Lipedema

Diagnóstico clínico

O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico e deve ser feito por profissional capacitado. Exames de imagem podem auxiliar na avaliação, mas não confirmam a doença de forma isolada.

No Rio Grande do Sul, segundo Caruso, há equipes que realizam métodos específicos de ecografia que ajudam a identificar alterações no tecido adiposo.

“Essas ferramentas contribuem, mas a avaliação médica continua sendo o principal”, afirma.

Ele observa que muitas pacientes chegam ao consultório após anos sem diagnóstico.

“É comum ouvir relatos de que a pessoa procurou vários profissionais antes de receber a orientação correta.”

Tratamento e qualidade de vida

O tratamento varia conforme o estágio da doença e os sintomas apresentados. Medidas conservadoras costumam ser a primeira abordagem, incluindo controle do peso, exercícios físicos, fisioterapia, drenagem linfática e uso de malhas compressivas.

“Nem toda paciente precisa de cirurgia. Muitas têm melhora significativa apenas com tratamento clínico bem conduzido”, afirma Caruso.

Nos casos indicados, procedimentos cirúrgicos podem ser utilizados para remover o tecido adiposo doente e aliviar sintomas.

“O objetivo não é apenas estético. A cirurgia busca reduzir dor, melhorar mobilidade e qualidade de vida, mas não é curativa. O lipedema continua presente e pode evoluir se não houver acompanhamento contínuo”, explica.

Medicamentos para emagrecimento e riscos no lipedema

O aumento da popularidade das chamadas “canetas emagrecedoras” e de outros medicamentos para perda de peso também tem levantado dúvidas entre pacientes com lipedema. Estudos recentes apontam que alguns fármacos utilizados para outras condições podem interferir na evolução da doença, especialmente aqueles associados a retenção de líquidos, alterações metabólicas ou ganho de peso.

Segundo Caruso, o uso dessas medicações precisa ser avaliado de forma individualizada.

“Existem pacientes com lipedema que também têm obesidade associada, e nesses casos alguns medicamentos podem ser indicados, mas isso não significa tratar o lipedema em si. A gordura do lipedema é diferente e geralmente não responde da mesma forma que a gordura comum”, explica.

Ele alerta sobre automedicação ou uso sem acompanhamento médico.

“Muitas pacientes chegam com a ideia de que a medicação vai resolver o problema das pernas, e nem sempre isso acontece. Por isso, é fundamental uma avaliação adequada para definir a melhor estratégia”, afirma.

Desafios no sistema de saúde

Apesar de o Ministério da Saúde informar que o atendimento a pessoas com lipedema está previsto desde 2023 na Política Nacional de Atenção Especializada em Saúde, pacientes relatam dificuldades para obter diagnóstico e tratamento pelo sistema público.

Segundo a pasta, o cuidado pode incluir acompanhamento especializado, fisioterapia, drenagem linfática, exercícios físicos e, em situações específicas, procedimentos cirúrgicos. Até novembro de 2025, foram registrados 931 atendimentos ambulatoriais e 757 hospitalares relacionados a lipedema e linfedema no país, sem separação específica por doença.

Especialistas apontam que, na prática, muitas pacientes só conseguem acesso quando o quadro é enquadrado como outra condição clínica, evidenciando lacunas na assistência e na formação profissional.

Falta de informação ainda é obstáculo

Outro problema é a ausência de treinamento formal sobre lipedema na formação de profissionais de saúde, o que contribui para diagnósticos tardios. Muitas mulheres acabam se autodiagnosticando após pesquisas na internet, buscando termos relacionados a dor e aumento desproporcional das pernas.

Para Caruso, a conscientização é positiva, mas precisa vir acompanhada de informação qualificada.


“A divulgação ajudou muito, mas também trouxe confusão. O mais importante é que a paciente procure avaliação médica para um diagnóstico correto”, orienta.

Para o cirurgião plástico Paulo Caruso, a compreensão sobre a doença é um ponto central no processo de cuidado.

“O mais importante é que as pessoas entendam que não é apenas uma questão estética. É uma doença que causa dor, impacto funcional e emocional. Quando a paciente recebe o diagnóstico correto, ela entende que não estava errando, que existe uma explicação e caminhos de tratamento. Isso muda completamente a perspectiva e a qualidade de vida”, afirma.

Quem quiser obter mais informações sobre a doença, sintomas e formas de tratamento pode acompanhar conteúdos educativos publicados pelo Grupo Gaúcho do Lipedema, que reúnem orientações de profissionais de saúde sobre o lipedema.