
Uma sequência de atendimentos médicos considerados inadequados, demora na realização de exames, negativa de procedimento cirúrgico de urgência e falhas na gestão da saúde pública motivaram uma série de denúncias contra a rede municipal de saúde de Farroupilha. O caso envolve José Alcides Reuss, de 68 anos, que morreu no dia 9 de novembro de 2025, menos de 24 horas após receber alta hospitalar, com sinais de infecção generalizada.
De acordo com relato da família, os primeiros sintomas surgiram no dia 3 de setembro de 2025, quando o paciente procurou atendimento no Centro de Saúde após perda súbita de sensibilidade na coxa direita. Exames de imagem descartaram trombose, e ele foi liberado com medicação e orientação para acompanhamento na rede básica de saúde.
No dia 7 de setembro, o paciente retornou ao local com paralisia repentina do pé esquerdo e foi encaminhado ao Hospital São Carlos. Uma tomografia da coluna lombar não apontou alterações, e, conforme informado à família, não havia especialistas disponíveis no hospital naquele dia. Após aplicação de corticoide, Reuss foi novamente liberado, com orientação para buscar atendimento particular.

Dois dias depois, em 9 de setembro, mesmo com déficit neurológico instalado, o paciente voltou ao hospital com dor abdominal intensa e constipação intestinal. Segundo a família, nenhum exame complementar foi solicitado, e ele foi liberado pela terceira vez, apesar de já necessitar de cadeira de rodas para locomoção.
Agravamento do quadro e atuação da Secretaria de Saúde
A gravidade do quadro passou a ser identificada apenas no dia 10 de setembro, após consulta particular com especialista e solicitação de ressonâncias magnéticas de urgência. Durante a realização dos exames, fora do município, José apresentou piora clínica, sendo atendido no Hospital São Pedro, em Garibaldi, onde exames laboratoriais apontaram infecção grave em curso e retenção urinária. O tratamento com antibióticos potentes foi iniciado, e a transferência para Farroupilha foi solicitada. Segundo a família, até então nenhum exame laboratorial havia sido realizado no município.
No dia 11 de setembro, já de volta ao Hospital São Carlos, Reuss permaneceu na emergência, com agravamento progressivo dos sintomas neurológicos, evoluindo para paralisia dos dois membros inferiores e sinais evidentes de infecção generalizada. Diante da piora clínica e da ausência de respostas efetivas, a família passou a exigir avaliação por especialista. Um neurologista foi acionado, analisou os exames realizados fora do município e solicitou novas ressonâncias da coluna cervical e torácica.
Ainda nesse período, a família afirma ter feito contato direto com a gerência do Hospital São Carlos e com o secretário municipal de Saúde, Thiago Brambilla, informando a gravidade do caso e a necessidade de providências urgentes.
No dia 12 de setembro, mais de 20 horas após a solicitação médica, as novas ressonâncias foram finalmente realizadas. Os exames apontaram uma lesão medular cervical com indicação de cirurgia de descompressão em caráter de urgência. Apesar do diagnóstico, a equipe médica informou que o Hospital São Carlos não teria estrutura para realizar o procedimento, solicitando transferência para outro hospital. A informação foi novamente repassada ao secretário municipal de Saúde.
Diante da demora e da progressão rápida dos sintomas, a família de José Alcides Reuss ingressou ainda no dia 12 com ação judicial, com pedido liminar de urgência, comunicando formalmente a Secretaria Municipal de Saúde sobre a medida.
Judicialização, negativa de transferência e agravamento irreversível
No dia 13 de setembro, o paciente seguia na emergência do Hospital São Carlos, com piora neurológica significativa e dores intensas. No dia 14, já com tetraplegia instalada e quadro clínico crítico, a família relata episódios de negligência no atendimento de enfermagem. A oficial de Justiça compareceu ao hospital para verificar a situação do paciente, com uma liminar sendo concedida horas depois. Ela foi novamente informada pela equipe médica de que a instituição não possuía estrutura para realizar a cirurgia necessária.
Ainda no dia 14, a Justiça concedeu liminar determinando que o Estado providenciasse a transferência hospitalar em até 24 horas. O prazo, no entanto, não foi cumprido.
No dia 15 de setembro, com o descumprimento da decisão judicial, a família voltou a contatar a gerência do hospital e o secretário municipal de Saúde, solicitando intervenção direta. Somente no dia 16 de setembro, após o Município ser incluído na ação judicial, foi adquirido leito em hospital particular, com determinação judicial de divisão dos custos entre Estado e Município.
A transferência ocorreu apenas no dia 17 de setembro, quando o paciente foi encaminhado ao Hospital Tacchini, já com comprometimento da capacidade respiratória. No novo hospital, foi constatada a necessidade de refazer todos os exames de imagem, pois os realizados anteriormente não utilizaram contraste. O paciente foi internado na UTI.
A cirurgia ocorreu no dia 20 de setembro e descartou a suspeita inicial de neoplasia, confirmando o diagnóstico de abscesso epidural, condição que exige diagnóstico e intervenção precoce. Segundo a família, os atrasos no diagnóstico e no tratamento cirúrgico contribuíram para a gravidade do quadro e para as sequelas irreversíveis.
Alta hospitalar e morte
Após semanas de internação e tratamento intensivo, o paciente apresentou melhora parcial e retornou ao Hospital São Carlos no dia 7 de outubro. No entanto, a família relata novas falhas assistenciais, interrupção precoce do tratamento antibiótico (ocorrida no dia 31 de outubro) e dificuldades de comunicação com a Secretaria Municipal de Saúde. Conforme o relato, ao ser orientada a procurar a ouvidoria do hospital, a família constatou que o canal não estava funcionando, situação que teria sido reconhecida por Thiago Brambilla.
No dia 8 de novembro, mesmo com sinais clínicos preocupantes, o paciente recebeu alta hospitalar, contrariando a equipe de transporte, a qual concordou em fazer o procedimento apenas com um documento do médico se responsabilizando pelo ato, o que foi negado. Menos de 24 horas depois, no dia 9 de novembro, faleceu em casa, com sinais claros de infecção generalizada.
Investigações
Após o óbito, a família afirma ter identificado informações públicas indicando que o Hospital São Carlos possui plantão presencial em neurocirurgia e estrutura compatível com o procedimento cirúrgico que havia sido negado anteriormente. Os fatos embasaram denúncias protocoladas junto ao Conselho Regional de Medicina, Ministério da Saúde e Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul.
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) requisitou à Polícia Civil a instauração de inquérito para apurar eventuais responsabilidades criminais dos envolvidos.
José Alcides Reuss tinha 68 anos e deixou quatro filhos e dois netos. Ele tinha histórico de superação de diversas doenças graves ao longo da vida, sem sequelas funcionais, conforme informado pela família.
Respostas por parte do Hospital São Carlos
A reportagem de Leouve procurou a assessoria do Hospital São Carlos, para que respostas fossem obtidas. No entanto no primeiro momento foi informado que a instituição não iria se manifestar sobre o caso, que culminou na morte de José Alcides Reuss.
No entanto, dias depois, uma nota foi divulgada à imprensa. O Hospital São Carlos lamentou o desfecho do caso e manifestou solidariedade aos familiares. A instituição afirma que todas as condutas médicas seguiram os protocolos clínicos vigentes e foram baseadas nas informações disponíveis à época, destacando a complexidade do quadro e a necessidade de reavaliações constantes.

O hospital ressalta que, diante da necessidade de cirurgia de alta complexidade, seguiu os fluxos regulatórios do SUS e solicitou transferência para unidade especializada, esclarecendo que decisões sobre regulação de leitos não dependem exclusivamente da instituição. Informa ainda que o paciente recebeu acompanhamento médico e multiprofissional contínuo durante a internação.
Por fim, o Hospital São Carlos afirma que está colaborando com as apurações dos órgãos competentes e reafirma seu compromisso com a ética, a transparência e a qualidade do atendimento prestado à comunidade.
O que diz a prefeitura?
A prefeitura de Farroupilha também foi procurada. Por meio de nota, foi manifestada solidariedade à família e aos amigos, expressando respeito pelo sofrimento enfrentado.
“Em relação aos questionamentos apresentados, a Secretaria Municipal da Saúde informa que os atendimentos realizados nas unidades municipais seguiram os protocolos padrões, com a devida avaliação clínica e encaminhamentos necessários”, diz a resposta.

O Município permanece à disposição e reitera seu compromisso com a qualidade do atendimento à população e com a transparência nas ações de saúde pública.