
A confusão entre verdade e realidade deixou de ser mero debate teórico; converteu-se em arma política. Realidade é o que é — subsiste antes e além da crença, da opinião, da simpatia ou da rejeição. A gravidade não se suspende por discurso; a doença não recua por negação; a economia responde a atos concretos; decisões políticas produzem efeitos, ainda que se tente ocultá-los. A realidade não pede licença às convicções — impõe-se pelos seus resultados.
A verdade, por sua vez, nasce do que o sujeito conhece. Desde Aristóteles, compreende-se que verdade é a correspondência entre o que julgamos e o que é real. Por vezes, ela pode degradar-se em persuasão, buscando que os outros pensem conforme nossas inclinações. Para tornar ainda mais claro: Realidade pertence ao campo do ser (ontologia). Verdade pertence ao campo do conhecimento (epistemologia). A primeira existe por si. A segunda exige um encontro correto entre a percepção e a razão. O saber só é verdadeiro quando alcança a lucidez.
Essa distinção ajuda a compreender o antagonismo contemporâneo. O debate público, muitas vezes, não gira em torno da realidade em si, mas da disputa por narrativas. Grupos diferentes interpretam os mesmos fatos a partir de premissas distintas, valores distintos e interesses distintos. Isso não é apenas próprio da vida democrática – é uma dinâmica existencial, um instinto que provoca a evolução social por meio de rivalidades e conflitos.
E aqui entra um elemento pouco admitido: a influência emocional. O ser humano não formula juízos em estado neutro. Medos, esperanças, ressentimentos, lealdades e experiências moldam a percepção. Virtudes como prudência, justiça e honestidade intelectual ampliam nossa capacidade de ver. Vícios como orgulho, fanatismo e apego ao poder estreitam o olhar. Assim nasce a “verdade particular”: não como invenção deliberada, mas como leitura filtrada.
O problema não está na pluralidade de perspectivas — algo saudável. O que não se pode fazer é imaginar que a realidade se ajustará à vontade de um grupo — ela responde por efeitos, não por discursos.
Talvez o conflito central do nosso tempo não seja entre correntes políticas, mas entre disposição para encarar o que é e tendência de moldar o que é ao que se deseja. A verdade não pertence a partidos. Ela exige caráter. E quanto mais complexa a realidade, maior deve ser nossa responsabilidade diante dela.