
Existe uma cena comum na vida adulta: criticamos algo com convicção — e seguimos usando porque é conveniente. Reclamamos do aplicativo, mas pedimos comida por ele. Questionamos o algoritmo, mas dependemos dele para trabalhar. Sabemos que há um problema, mas não abrimos mão do conforto.
O paradoxo da conveniência
Essa lógica não ficou restrita ao indivíduo. Ela chegou às instituições.
Em 2025, o Estado brasileiro passou a viver aquilo que chamo de Paradoxo da Conveniência. O discurso oficial endureceu contra as Big Techs, apontadas como terreno fértil para desinformação, distorção do debate público e riscos à democracia. Ao mesmo tempo, na prática silenciosa, a máquina pública destinou R$ 129,6 milhões em publicidade digital exatamente às plataformas que critica.
A crítica é pública. A dependência é operacional.
Enquanto o governo pressionava o Parlamento por uma legislação mais dura — seja pelo PL 2630, seja por caminhos alternativos via responsabilização civil e regulação econômica —, a Secretaria de Comunicação seguia despejando recursos em Google, Meta, TikTok e afins. O argumento técnico é simples: a atenção das pessoas está ali. E comunicar, orientar e disputar narrativa exige estar onde o olhar repousa.
Aqui nasce a ambiguidade.
De um lado, a pressão política por regras mais rígidas, com discursos sobre soberania digital e “terra sem lei”. Do outro, o pragmatismo do clique: financiar o mesmo ecossistema para garantir alcance, eficiência e velocidade na entrega da mensagem pública. O Estado critica o modelo de engajamento — e, simultaneamente, o valida economicamente.
Não se trata de hipocrisia rasa. Trata-se de estrutura.
Quando não existem rotas alternativas de comunicação de massa, toda crítica vira discurso e toda prática vira concessão. O dinheiro público ajuda a sustentar a engrenagem que se deseja regular, não por alinhamento ideológico, mas por dependência funcional. A mão que pressiona o Parlamento é a mesma que assina o contrato publicitário.
Esse paradoxo não é exclusivo da política. Ele é profundamente humano — e corporativo.
É o mesmo padrão visto em organizações que reconhecem falhas sistêmicas, mas não conseguem operar fora delas. Líderes que discursam sobre transformação, mas seguem presos ao legado. Times que sabem do risco, mas paralisam diante da exceção.
Governança, no fim, não é sobre leis, plataformas ou discursos duros. É sobre maturidade para decidir sob pressão, mesmo quando as opções são imperfeitas. É sobre reconhecer a dependência sem normalizá-la — e, ainda assim, construir alternativas.
Enquanto a regulação avança de forma fatiada e lenta, seguimos presos à conveniência. E a conveniência tem um custo silencioso: ela adia decisões difíceis, transforma incoerência em rotina e reduz crítica a retórica.
Talvez a pergunta mais incômoda não seja se o Estado está certo ou errado.
Mas se nós, como líderes, gestores e sociedade, estamos realmente preparados para abrir mão do conforto quando ele cobra seu preço.