
Tenho acompanhado muitos pesquisadores em campo. E esse campo não é apenas um lugar físico, é um território de escuta, mediação, observação cuidadosa e tempo. Tempo de medir, de comparar, de caminhar o território e de deixar que ele também fale.
Enquanto parte do debate público se perde em ruídos digitais, teorias simplificadas e disputas de narrativa, existe um Brasil real acontecendo fora das telas. Um Brasil onde pesquisadores dedicam a vida a estudar soluções concretas para a resiliência climática, com método, responsabilidade e compromisso com o coletivo.
Falo de pessoas ligadas à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, à Universidade Feevale, à Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, e a tantos outros grupos de pesquisa espalhados pelo país. Pessoas que escolheram passar décadas estudando solo, água, encostas, cidades, risco, adaptação. Pessoas que fizeram da ciência não uma opinião, mas um trabalho diário, muitas vezes invisível.
Enquanto isso, fora da bolha digital, há quem passe a vida inteira caminhando territórios, analisando dados, revisando hipóteses, errando, corrigindo e aprofundando. Há quem dedique a própria carreira a compreender como eventos extremos se formam, como impactos se acumulam e como comunidades podem estar mais preparadas para enfrentar o que já está em curso.
Esse trabalho não cabe em frases curtas. Não vira manchete fácil. Não se sustenta em certezas rápidas.
A ciência não grita. Ela constrói.
E talvez por isso, em alguns momentos, ela pareça distante. Mas ela está ali, sustentando decisões, orientando políticas, protegendo vidas, mesmo quando não recebe aplausos. São profissionais altamente qualificados, bem-intencionados, comprometidos com algo que vai muito além de resultados individuais: o bem comum.
É legítimo questionar, cobrar, discordar. A ciência avança também pelo debate. Mas há uma diferença fundamental entre questionar com responsabilidade e desacreditar sem envolvimento. Entre cobrar soluções e ignorar o trabalho de quem está, há anos, tentando construí-las.
Nesse ponto, me incluo na reflexão. Enquanto empresária, comunicadora e facilitadora de processos, reconheço que o meu papel, e o de muitos de nós, não é substituir a academia, nem disputar espaço com ela. É fazer pontes.
O Papel da Universidade e a Dinâmica de Mercado
A função da universidade é pesquisar, aprofundar, compreender.
A função de quem atua no mercado, na gestão e na liderança é ajudar essas pesquisas a circularem, a dialogarem com a sociedade, a se transformarem em políticas, práticas, decisões e caminhos possíveis.
Nenhum ecossistema se sustenta sozinho. ciência, mercado, poder público e sociedade precisam aprender a caminhar juntos, com menos ruído e mais escuta.
Talvez o futuro não esteja em respostas prontas, nem em narrativas fáceis. Talvez ele esteja sendo protegido agora, de forma silenciosa, por pessoas que escolheram dedicar a vida a estudar, compreender e cuidar do que é de todos.
A pergunta que fica não é se existem pesquisas suficientes. É se estamos dispostos a enxergá-las, valorizá-las e assumir também a nossa parte nessa construção coletiva.
O futuro se sustenta quando ciência, liderança e sociedade aprendem a caminhar juntas.
E quando cada um assume, com maturidade, o seu lugar nessa construção.