Era um domingo, final de tarde de sol de início de outono, ainda com cara de verão.
O telefone dela tocou sem parar, mas como estava tomando um chá de pitanga na varanda cercada por Bougainvilles vermelho carmim, olhando o pôr do sol, Greta não atendeu. Sim, o nome dela era Greta, sem julgamentos, por favor.
Estava sozinha na casa da praia, enquanto o marido, Narciso, disse que queria passar o final de semana trabalhando ou sossegado, já que ele não estava bebendo e não gostava de sair de casa. Ele não gostava de ir até a casa de praia, e quando ía, ficava reclamando que queria voltar pra cidade. Ou pelo menos era isso o que ela ouvia dele.
O telefone continuou tocando e ela resolveu atender.
- Dona Greta?
- Sim, falando …
- Meu nome é Carlos, disse a voz educada e meio rouca, quase assustada.
Ela esperou que ele continuasse, porque provavelmente era um golpista querendo saber o número do cartão de crédito e saldo da conta bancária dela.
- Eu tenho uma noticia, é sobre o seu marido …
- Marido, que marido? Qual o nome dele? ela perguntou tentando ter certeza que não era um golpe.
- Seu Narciso, o nome dele é Narciso.
- Narciso? Sim é ele, meu marido. O que aconteceu? Ele botou fogo na churrasqueira de novo?
- Não dona, eu trabalho no Hotel Águas de Chocolate, e seu marido sofreu um acidente aqui.
- Carlos, é Carlos né? Acho que você se enganou, meu marido está em casa, ele odeia viajar pra praia, ainda mais para uma praia do Rio Grande do Sul.
- Não dona, é ele sim, e o carro dele caiu no mar, porque ele tava meio embriagado, tentando pescar de dentro do carro com um pessoal de sotaque estranho que falava sem parar.
- Ele morreu?
- Não dona, ele não morreu, só pediu pra senhora buscar ele aqui.
- Entendi, mas porque você … Carlos né? Por que você, Carlos, está me ligando?
- Bom dona, ele pediu pra eu ligar porque o carro estragou, e quando caiu ele mordeu a língua, e agora não consegue falar, só escrever. Mas se quer saber a verdade, eu acho que ele tá com medo de falar com a senhora…
Um silêncio se fez, enquanto Greta pensava no marido que disse ter ido pra casa trabalhar, descansar, e que não gostava de sair de casa.
Depois de um tempo, Greta suspirou. Profundamente e com chamas ardendo pelo corpo inteiro.
- Não, não vou mesmo, ela respondeu.
Depois ficou quieta e não ouviu mais nada. Não sabe se Carlos desligou, ou se ela, transtornada, que desligou o telefone.
Começou a lembrar de todos nãos que ele disse pra ela, durante todos os anos que estiveram juntos. Ele dizia que eram nãos de brincadeira, mas ela era a única para quem ele dizia e cumpria os nãos. Não para os lugares que ela queria ir, para os filmes que ela queria ver, para os restaurantes onde ela queria comer algo sem ter que cozinhar, para os passeios e caminhadas nos parques. Não para as comidas saudáveis que ela queria fazer, para os amigos que queria apresentar, para as viagens a lugares diferentes dos que ele gostava, para as músicas que ela encontrava. Os nãos para as conversas que ela queira ter, para os carinhos que ela queria trocar, assim como para a mão estendida que ela queria que ele segurasse. Não para os beijos, e o não para a cumplicidade que tiveram e se perdeu com o tempo e afastamento dele.
Ela deixou Narciso lá, com o carro estragado e a língua cortada, esperando que ele nunca mais falasse não, e para que as próximas esposas, amantes, amigas coloridas, cruches ou seja o que for, não precisassem ouvir os nãos que afogaram ela, assim como os sims que ele dizia apenas para as pessoas que realmente amava.
Greta nunca entendeu porque Narciso não disse o não mais importante, que era não querer mais ficar casado com ela, e mais intrigante ainda, porque ela não aprendeu a dizer não antes.