Criança sentada em terra rachada, olhando para o sol ao pôr do sol, representando esperança e reflexão.
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Nas últimas semanas, ouvi uma frase que se repete com uma frequência preocupante: “mudanças climáticas não existem”. Ela não veio de alguém da área ambiental. Veio de alguém convencido. E talvez aí esteja parte do problema.

Enquanto seguimos discutindo se o fenômeno é real ou não, o mundo continua respondendo, e não com discursos, mas com eventos extremos. Neves intensas fora do padrão na Rússia. Tufões e alagamentos recorrentes na Itália. Ondas de calor, secas prolongadas, chuvas concentradas. O que aconteceu no Rio Grande do Sul não é um ponto fora da curva. É parte de um cenário global.

A ciência e a linha de frente nos municípios

O clima não respeita fronteiras nem bolhas. Mas nós, humanos, insistimos em olhar apenas para o nosso recorte imediato. Vivemos hoje um cenário climático preocupante, e isso não é opinião, é leitura técnica, dados, ciência acumulada. Ainda assim, percebo que as respostas avançam a passos muito lentos, especialmente quando falamos de preparação local. Municípios são a linha de frente da adaptação climática. É ali que a resposta acontece, ou falha.

Em conversas recentes com pesquisadores, algo chamou minha atenção. Sem julgamento, apenas como constatação: muitos municípios colocaram pessoas para atuar em áreas estratégicas como clima, defesa civil e gestão de riscos sem o mínimo de base técnica para dialogar com quem estuda o tema há anos. Isso não é uma crítica pessoal. É um risco estrutural.

Porque a adaptação climática exige mais do que boa vontade. Exige leitura de dados, compreensão de cenários, capacidade de antecipação. Exige saber conversar com universidades, centros de pesquisa e comitês científicos. Exige entender que o próximo evento extremo não é uma hipótese distante, mas uma possibilidade concreta, apenas não sabemos quando.

O “novo normal” e a resistência ao aprendizado

Mitigar é reduzir impactos futuros. Adaptar é aceitar que o “novo normal climático” já está entre nós. E talvez o ponto mais sensível seja este: nós, como sociedade, temos dificuldade em aprender com a dor. Vivemos tragédias, nos mobilizamos, criamos comitês, endurecemos regras. Depois, aos poucos, tudo vai sendo flexibilizado. A rotina retorna. A urgência se dilui. Foi assim na pandemia. Foi assim em tantos outros momentos críticos. E está sendo assim com o clima.

Não se trata de dizer que nada está sendo feito. Pelo contrário. Há avanços importantes, pesquisas sérias, esforços do governo estadual, produção científica qualificada. O problema é que nem todos os municípios estão se apropriando desse conhecimento. Nem todos demonstram interesse real em transformar dados em ação.

Enquanto isso, nas redes sociais, vivemos um fenômeno curioso: todo mundo virou especialista. Em clima, em geopolítica, em ciência. Entre opiniões rasas e fake news bem embaladas, o ruído cresce, e a ciência, muitas vezes, perde espaço.

Por isso, talvez a pergunta que fique não seja apenas “o que o poder público está fazendo?”, mas também “como nós estamos cobrando?”. Cobrar é fundamental. Mas cobrar com conhecimento, com interesse real em entender o que está sendo feito, quais dados estão sendo usados, quais decisões estão sendo tomadas.

Resiliência climática não é um conceito distante. É capacidade de aprender, de lembrar, de ajustar rotas antes da próxima crise. O clima já mudou. A pergunta que fica é se nós estamos dispostos a mudar com ele, ou se vamos, mais uma vez, agir só depois do impacto.