
Nos últimos dias, o Paraná foi palco de mais um evento climático extremo. Ventos fortes, destruição, cidades em alerta. E, junto com as imagens, vieram também as vozes dizendo: “sempre aconteceu”, “já tivemos ventos assim antes”, “é alarmismo falar em mudanças climáticas”.
Mas é importante esclarecer: ninguém está dizendo que esses fenômenos nunca existiram. O que estamos dizendo é que eles estão se tornando mais frequentes, mais intensos e mais próximos uns dos outros.
É exatamente isso que chamamos de mudança climática — não o surgimento de algo inédito, mas a aceleração e amplificação de eventos que antes eram pontuais.
Não é alarme, é realidade
Sim, já tivemos grandes enchentes no passado, como a de 1941. Já tivemos ventos fortes, estiagens, temporais. A diferença é que, hoje, esses eventos não são mais exceção — são parte de um novo padrão climático.
A ciência confirma o que já sentimos na pele: o aquecimento global altera o regime de ventos, de chuvas, de temperatura e de umidade, tornando o clima mais imprevisível e extremo.
E enquanto discutimos se é exagero ou não falar em “crise climática”, as cidades continuam despreparadas.
Seguimos reconstruindo no mesmo lugar, da mesma forma, com a mesma lógica — como se a próxima ventania fosse demorar mais 80 anos para chegar.
Adaptação não é resposta — é preparo
Falar em adaptação climática vai muito além da resposta à emergência. É compreender que existem níveis de preparo que precisam caminhar juntos:
- Resposta imediata: resgatar, reconstruir, acolher.
- Prevenção estrutural: fortalecer drenagem, redes elétricas, habitação e planejamento urbano.
- Adaptação cultural: mudar a mentalidade — entender que o clima mudou, e nossas decisões precisam mudar junto.
É nesse último nível que mora o desafio maior. Adaptar o comportamento humano, o modo como planejamos, construímos, educamos e governamos. Porque prevenir exige mais do que obras — exige consciência.
Enquanto o mundo olha para Belém
Nesta semana, o Brasil sedia a COP 30, e o mundo volta seus olhos para nós. É um momento simbólico: um país que vive, em tempo real, os efeitos das mudanças climáticas, enquanto discute como enfrentá-las globalmente.
Os acordos e declarações que sairão de Belém são importantes, mas não serão suficientes se não houver ação concreta nas cidades.
O futuro climático do Brasil será definido nas ruas, nas margens dos rios, nas encostas e nos bairros que enfrentam todos os dias as consequências daquilo que chamamos de “evento extremo”.
A mudança começa em cada um
A adaptação não é apenas um dever dos governos — é uma responsabilidade coletiva.
Toda vez que plantamos uma árvore, limpamos um córrego, cobramos políticas públicas, apoiamos soluções sustentáveis, estamos agindo na raiz do problema.
Não é alarmismo. É realismo.
O clima está mudando — e nós precisamos mudar junto.
Reflexão final
Depois do vento, fica a pergunta: vamos continuar repetindo que “sempre foi assim” — ou vamos finalmente aceitar que agora é diferente?
Porque negar o novo normal não o fará desaparecer.
E preparar nossas cidades e mentes para o que vem é o único caminho possível para garantir que, depois do vento, ainda haja um futuro a ser reconstruído.