
Nos vinhedos brasileiros, uma ameaça silenciosa pode comprometer seriamente a produtividade e a qualidade das uvas: a glomerella, fungo causador da antracnose da videira. Presente em diversas regiões produtoras, essa doença merece atenção especial por sua capacidade de se instalar precocemente na planta e evoluir rapidamente quando encontra condições favoráveis. Compreender o comportamento da glomerella é o primeiro passo para um manejo eficiente nos vinhedos.
A glomerella é a fase sexual do fungo Colletotrichum, responsável por atacar brotações, folhas, ramos, flores e frutos da videira. Sua manifestação é caracterizada por manchas escuras e deprimidas, que podem evoluir para rachaduras nos tecidos, levando à queda de flores, deformação dos cachos e perda comercial dos frutos. Em infecções severas, a doença compromete inclusive a longevidade do vinhedo, tornando-se um problema recorrente se não houver controle da glomerella adequado.
Os fatores ambientais exercem papel decisivo no avanço do fungo. Alta umidade relativa do ar, chuvas frequentes, orvalho prolongado e temperaturas amenas a elevadas (entre 25°C e 30°C) criam o cenário ideal para a infecção. A glomerella entra na planta, principalmente, em fases iniciais do ciclo, logo após a brotação, aproveitando tecidos jovens e mais suscetíveis ou no ciclo final do vinhedo, quando as bagas começam a amolecer, quanto mais fina a casca da baga mais favorável o ataque. Restos culturais contaminados e gemas infectadas funcionam como importantes fontes de inóculo entre uma safra e outra, fechando o ciclo da doença.
O ciclo da glomerella é rápido e eficiente. O fungo sobrevive no vinhedo durante o período de dormência e, com o retorno das condições favoráveis, produz esporos que são disseminados pela chuva e pelo vento. Uma vez instalado, o patógeno coloniza os tecidos e produz novas estruturas de disseminação, ampliando a área afetada. Por isso, o monitoramento constante é indispensável para identificar os primeiros sinais e agir no momento correto.
O controle e manejo da glomerella devem ser integrados, combinando práticas culturais, químicas e preventivas. A poda bem executada, a eliminação de restos vegetais doentes, o uso de mudas sadias e o bom arejamento do vinhedo reduzem significativamente a pressão do fungo. O controle químico, quando necessário, deve ser preventivo (principalmente no início da brotação, antes das bagas fechar os espaços nos cachos e depois que amolece as bagas), respeitando o calendário fenológico da cultura e alternando ingredientes ativos (Azoxistrobina, Tebuconazol, Cyprodinil, Fludioxonil, Clorotalonil) para evitar resistência, o uso de produtos biológicos durante o desenvolvimento (Bacillus velezensis, Bacillus subtilis, Bacillus pumilus, Bacillus amyloliquefaciens) contribuem no controle e desenvolvimento das plantas e o uso da calda bordalesa e sulfocálcica no inverno contribui muito no controle.
Por fim, vale destacar que o sucesso no manejo da antracnose da videira passa pelo conhecimento técnico e pela tomada de decisão estratégica. A glomerella não é um problema pontual, mas sim um desafio contínuo nos vinhedos. Investir em prevenção, planejamento e acompanhamento agronômico é o caminho mais seguro para proteger a produção, garantir sanidade às plantas e preservar a rentabilidade do produtor ao longo das safras.