Dois homens se cumprimentando em um grupo de presidiários, ambos com tatuagens e roupas azuis.
Imagem: Google Gemini

As facções criminosas se converteram em um poder paralelo no Brasil. Organizadas hoje como verdadeiras corporações, estendendo seus tentáculos em redes financeiras, conexões institucionais e políticas. Contudo, sua gênese não está em gabinetes nem em planos sofisticados, mas no interior do sistema carcerário — um ambiente que, em tese, seria impróprio à organização racional. Não surgiram do acaso nem prosperaram por mero desvio moral individual. São fruto de um processo histórico, social e institucional que precisa ser encarado sem hipocrisia.

Na base desse fenômeno está um instinto primário: o da sobrevivência. O abandono histórico do Estado no sistema prisional não apenas falhou em ressocializar; produziu um vácuo de poder que, gradualmente, foi ocupado. Em um ambiente marcado pela violência permanente, pela supressão de direitos mínimos e pela desordem estrutural, esse instinto emergiu de forma brutal, impulsionando a criação de organizações internas capazes de oferecer aquilo que o Estado negou: proteção e previsibilidade de existência.

Desde os primórdios, o ser humano se organiza em grupos para sobreviver. Se antes prevalecia o mais forte fisicamente, hoje impera o mais astuto. O líder da facção é o cérebro que planeja, organiza e garante segurança. Em troca, exige lealdade absoluta. O cárcere, nesse contexto, deixa de ser apenas espaço de punição e passa a funcionar como laboratório de estruturas de poder paralelas.

Contudo, o terror, por si só, não sustenta uma organização. É necessária viabilidade econômica. O crime passa a ser planejado e distribuído hierarquicamente. Cada integrante recebe sua parte. Todos “ganham”. Drogas e tráfico cumprem dupla função: financiam a estrutura e anestesiam o sofrimento dos próprios membros, servindo como válvula de escape emocional e mecanismo de controle. As armas reforçam tanto a coerção imposta quanto a adesão voluntária. O sistema torna-se autossuficiente e se fecha sobre si mesmo.

É a partir dessa base econômica que se consolida um dos vínculos mais profundos e perversos das facções: o amparo às famílias dos presos. A proteção não se limita ao cárcere. As organizações passam a auxiliar financeiramente companheiras, filhos e parentes, criando uma rede criminal de apoio. O vínculo, então, deixa de ser sustentado apenas pelo medo e passa a ser mantido pela dependência material e emocional, aprofundando a fidelidade e dificultando qualquer ruptura. Nesse cenário, até o policial é deixado à própria sorte, exposto a riscos contínuos.

A Responsabilidade Compartilhada

Mas a responsabilidade não é apenas estatal. A sociedade, incapaz de encarar a tragédia que ajudou a construir, rejeita investimentos no sistema prisional, como se ignorar o problema fosse suficiente para fazê-lo desaparecer. Para os políticos, isso “não dá voto”. E assim o ciclo se perpetua: o Estado finge que age, as facções se fortalecem e quem paga, invariavelmente, é a própria sociedade. Romper esse ciclo exige visão institucional e maturidade social.

Enquanto o sistema prisional for tratado como um depósito humano, continuará funcionando como incubadora de organizações criminosas. Defender direitos no cárcere não é “defender bandido”; é defender a sociedade. Prisões desestruturadas produzem facções estruturadas. Ignorar essa equação é optar conscientemente pela perpetuação do caos.