
Se o seu feed nas redes sociais foi invadido pela trend “Você em 2016”, é hora de relembrar o que foi destaque nas telonas. Enquanto a gente publicava fotos com filtros duvidosos no Instagram, o cinema vivia um ano decisivo.
Em 2016, a tecnologia de computação gráfica cruzou uma fronteira ética final (reviver os mortos), o cinema sul-coreano e brasileiro chutaram a porta dos festivais internacionais e, claro, tivemos uma das cerimônias do Oscar mais caóticas da história. De Hollywood às ruas da Serra Gaúcha, o Olá te apresenta um raio-X de como estava o cinema há 10 anos, em 10 filmes.
A Serra Gaúcha vira cenário
Para os moradores da região, 2016 teve um gosto diferente. Quem morava por aqui viu, de perto, a ficção se misturar com a realidade.
1. O Filme da Minha Vida
Mesmo lançado em 2017, foi em 2016 que a magia (e o caos logístico) aconteceu na nossa vizinhança. O ator Selton Mello transformou Garibaldi, Bento Gonçalves e Cotiporã em um set a céu aberto para a gravação de seu terceiro (e até então, último) longa-metragem como diretor.

A produção de O Filme da Minha Vida realizou um verdadeiro trabalho de arquitetura para criar o universo ficcional da obra. Em vez de construir estúdios artificiais, a equipe liderada por Mello e pelo diretor de fotografia Walter Carvalho optou por uma “colagem” geográfica. Eles costuraram locais reais de seis municípios da Serra (Garibaldi, Bento Gonçalves, Cotiporã, Farroupilha, Monte Belo do Sul e Santa Tereza) para dar vida às fictícias Remanso e Frontera.
A direção de arte interveio cirurgicamente em patrimônios históricos: a Casa Paroquial de Cotiporã ganhou uma fachada cenográfica para virar o “Cine Roxy”, enquanto a Associação de Moradores local transformou-se no bordel da cidade. O famoso trem Maria Fumaça teve um vagão inteiramente adaptado para as filmagens entre Carlos Barbosa e Bento, e antigas casas de pedra e madeira, como a residência na Linha 80 em Farroupilha (casa do Paco), foram exploradas pela sua textura original. Isso permitiu que a luz natural e as lentes anamórficas criassem a atmosfera lúdica e atemporal que define a estética do filme, situando a trama no final dos anos 60 sem necessidade de grandes intervenções digitais.
Onde assistir: Globoplay (assinatura) ou Amazon Prime Video (Aluguel/Assinatura Premium).
2. Os Senhores da Guerra
Enquanto Hollywood olhava para o futuro, o RS olhava para o passado. O épico de Tabajara Ruas (lançado em setembro de 2016) foi uma aula de produção de época com orçamento limitado.
Adaptação do livro de José Antônio Severo, o filme é um épico gaúcho situado nas Revoluções de 1923 e 1924, narrando a tragédia real dos irmãos Bozano: Júlio (chimango, legalista) e Carlos (maragato, revolucionário), que, apesar do amor fraterno, acabam em trincheiras opostas numa guerra civil sangrenta. A obra integrou a seleção oficial do 42º Festival de Cinema de Gramado (2014), onde recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante (Andréa Buzato).
Tive a oportunidade de assistir à primeira exibição pública no Palácio dos Festivais, numa sessão onde o diretor Tabajara Ruas, emocionado, compartilhou com a plateia os desafios gigantes de rodar um épico de guerra independente, mobilizando cavalaria real e centenas de figurantes pelos pampas para recriar batalhas históricas sem depender de grandes estúdios.
O Oscar da Confusão
A cerimônia do Oscar (realizada em 2017, premiando filmes de 2016) ficou marcada pela troca dos envelopes, onde La La Land foi anunciado como vencedor por engano. Mas o verdadeiro vencedor, na minha opinião, saiu ainda maior desse episódio.
3. Moonlight: Sob a Luz do Luar
Esqueça tudo sobre a polêmica do envelope: o impacto aqui foi cultural. Moonlight mostrou que uma história ultra-específica, intimista e silenciosa poderia derrubar produções gigantescas de estúdio.
Estruturado em três atos distintos (infância, adolescência e vida adulta), o filme narra a jornada de crescimento de Chiron, um jovem negro de Miami que tenta descobrir sua identidade e sexualidade enquanto navega entre o vício em crack da mãe e a violência das ruas. A obra venceu pelo tom: uma delicadeza rara para tratar de masculinidade e vulnerabilidade em ambientes hostis. Mahershala Ali levou o Oscar de Ator Coadjuvante entregando uma performance curta, mas devastadora.
Onde assistir: Amazon Prime Video e Apple TV (Aluguel/Assinatura Premium).
4. Manchester à Beira-Mar
Casey Affleck levou o Oscar de Melhor Ator e o filme conquistou a estatueta de Roteiro Original com uma trama que segue Lee Chandler, um zelador solitário forçado a retornar à sua cidade natal após a morte súbita do irmão. Lá, ao descobrir que foi nomeado tutor do sobrinho adolescente, ele é obrigado a confrontar um erro trágico do seu passado que o tornou emocionalmente inacessível.
A Produção: O filme se destaca por sua forma sóbria e naturalista, apostando em um realismo social característico do diretor Kenneth Lonergan. Vindo do teatro, Lonergan constrói filmes amarrados por roteiros profundamente humanos, onde o conflito central define a psicologia e as limitações de seus personagens. Tecnicamente, ele apostou no som direto “sujo” e na sobreposição de falas para criar veracidade, resultando em um retrato doloroso sobre o luto.
Onde assistir: Amazon Prime Video e HBO Max (assinatura).
O salto tecnológico (mas a que custo?)
5. Rogue One: Uma História Star Wars
2016 foi o marco zero da “Necromancia Digital”. A ILM (Industrial Light & Magic) recriou digitalmente o ator Peter Cushing (Grand Moff Tarkin), falecido em 1994, para atuar como coadjuvante.
A reação do público foi imediata e polarizada: um misto de fascínio e desconforto moral, com muitos questionando se havíamos cruzado uma linha perigosa ao “escalar” um morto sem seu consentimento. A franquia Star Wars não recuou e repetiu a estratégia logo em seguida, rejuvenescendo Carrie Fisher (Leia) e Mark Hamill (Luke) em projetos posteriores.
Hoje, esse debate explodiu. Com a evolução da Inteligência Artificial Generativa e a capacidade de processamento em tempo real de ferramentas como a Unreal Engine, a recriação humana deixou de ser exclusividade de superestúdios. Nos próximos anos, o campo de batalha da indústria será o direito de likeness (a semelhança física ou a “identidade digital” de uma pessoa), definindo quem realmente é dono do nosso rosto, em vida ou após a morte.
Onde assistir: Disney+.
6. Kubo e as Cordas Mágicas
Ambientado em um Japão feudal fantástico, o filme narra a odisseia de Kubo, um contador de histórias que usa seu shamisen (instrumento musical) mágico para dar vida a origamis. Acompanhado por uma macaca e um besouro samurai, ele parte em busca de uma armadura ancestral para enfrentar o espírito vingativo de seu avô, o Rei Lua.
Essa obra-prima venceu o BAFTA de Melhor Animação e alcançou um feito histórico no Oscar: foi uma das raras animações indicadas à categoria de Melhores Efeitos Visuais, competindo de igual para igual com blockbusters live-action.
A Produção: É a prova de que a tecnologia também serve ao artesanato. O estúdio Laika construiu um boneco de esqueleto de 5 metros de altura para o stop-motion (o maior da história), misturando impressão 3D avançada (para as milhares de expressões faciais intercambiáveis) com engenharia mecânica pesada.
Onde assistir: Apple TV (Aluguel).
7. A Chegada (Arrival)
Esse está aqui por puro clubismo: é um dos meus favoritos de 2016. A trama acompanha a linguista Louise Banks, recrutada às pressas pelos militares para tentar se comunicar com alienígenas que pousaram doze naves misteriosas ao redor do globo. Ela corre contra o tempo para decifrar a linguagem deles antes que as potências mundiais iniciem uma guerra global.
Apesar de ter recebido 8 indicações (levando apenas Edição de Som), o filme carrega a infame marca de ter sido esnobado nas categorias principais, especialmente a exclusão imperdoável de Amy Adams da lista de Melhor Atriz.
A Produção: Visualmente, ele subverte o panteão dos filmes de “Contatos Imediatos”. Ao contrário das invasões barulhentas e metálicas típicas de Hollywood, o diretor Denis Villeneuve apostou em texturas orgânicas e práticas: a nave parece uma rocha antiga suspensa no ar e os famosos “logogramas” não foram apenas CGI, mas baseados em tinta real se espalhando, criando uma estética tátil. É um Sci-Fi reflexivo onde a maior arma não é um laser, mas a palavra.
Onde assistir: Amazon Prime Video e HBO Max (assinatura).
Cinema mundial em destaque
8. Aquarius
O filme brasileiro mais discutido da década narra a resistência de Clara (Sônia Braga), uma jornalista de música aposentada e viúva, que se torna a última moradora do antigo edifício Aquarius, no Recife. Enquanto uma construtora usa táticas de assédio psicológico para forçá-la a vender o apartamento, ela transforma seu lar em uma trincheira de memórias.
A obra estreou mundialmente em meio a um furacão político: o elenco cruzou o tapete vermelho de Cannes segurando cartazes contra o processo de impeachment no Brasil, o que gerou uma controversa retaliação interna (incluindo uma classificação indicativa restritiva).
A Produção: Visualmente, Kleber Mendonça Filho abriu mão de linguagem “moderna” para resgatar o zoom óptico lento típico do cinema americano dos anos 70 (clara influência de Brian De Palma), criando uma câmera que observa os personagens como um voyeur. O edifício não é apenas cenário; é um personagem tratado com a mesma reverência que a protagonista. E Sônia Braga entregou uma performance grandiosa: ignorada pelo Oscar, ela foi aclamada pela crítica global, vencendo prêmios em festivais de Lima a Mar del Plata e sendo eleita uma das melhores atrizes do ano por publicações como a Cahiers du Cinéma.
Onde assistir: Globoplay (assinatura) ou Amazon Prime Video (Aluguel/Assinatura Premium).
9. Invasão Zumbi (Train to Busan)
Direto da Coreia do Sul, uma aula de como fazer filme de zumbi sem depender só de CGI. O filme faturou quase US$ 100 milhões (com um orçamento de apenas US$ 8,5 mi) e quebrou recordes históricos de público no país. A trama acompanha Seok-woo, um executivo viciado em trabalho que luta para proteger a filha pequena dentro de um trem-bala infestado, enquanto o vírus se alastra pelos vagões claustrofóbicos.
A Produção: O segredo da visceralidade da ação foram os “contorcionistas”. O diretor Yeon Sang-ho evitou a computação gráfica para os zumbis em primeiro plano porque queria “peso” e impacto físico. Ele contratou o coreógrafo Jeon Young, especialista em bone-breaking (um estilo de dança de rua focado em deslocar articulações), para treinar o elenco. O resultado foram movimentos erráticos, de “quebrar ossos”, que simulavam convulsões de raiva, criando um terror tátil que computador nenhum consegue imitar perfeitamente.
Onde assistir: Netflix.
10. Silêncio (Silence)
Este é o verdadeiro “projeto de vida” de Martin Scorsese, que levou exatos 28 anos para sair do papel (ele leu o romance original de Shusaku Endo em 1989, num trem-bala no Japão, e passou décadas preso em batalhas legais e de roteiro).
A trama situa-se no século XVII e acompanha a jornada angustiante de dois padres jesuítas portugueses (Andrew Garfield e Adam Driver) que viajam clandestinamente ao Japão em busca do seu mentor desaparecido (Liam Neeson). Eles enfrentam uma perseguição religiosa brutal e, pior que a tortura física, o silêncio ensurdecedor de Deus diante do sofrimento humano.
A Produção: Para realizar a obra, Scorsese abriu mão do ritmo frenético e da montagem acelerada do seu predecessor O Lobo de Wall Street para filmar na lama, na neblina e na luz natural de Taiwan. A produção exigiu rigor: Garfield e Driver perderam dezenas de quilos (Driver perdeu 23kg) e viveram em isolamento real, inclusive fazendo retiros espirituais de silêncio, para atingir a fragilidade física e a exaustão mental dos personagens.
O resultado foi o “anti-blockbuster” do ano: um fracasso de bilheteria que desafiou a paciência do público de pipoca, mas foi aclamado pela crítica como uma obra-prima teológica e visual. Eu amo.