Casal brindando com vinho em um restaurante ao ar livre, com edifícios históricos ao fundo.
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Cidades, países, culturas diferentes sempre me interessaram. Tem as paisagens, tem a língua, tem os hábitos e o jeito de se relacionar. Tem a comida, a música, as leis não escritas, valores e visão do mundo e mais tantas outras peculiaridades.

Apesar de ser impossível colocar todas as pessoas num balaio achando que são iguais, os italianos tem várias características em comum. Agora imagine um italiano de segunda ou terceira geração, habitante da Serra Gaúcha.

Bom, minha história começa quando casei com um italiano. Tecnicamente um italiano, mas na prática um híbrido, um italiano Mutante, resultado da fusão dos antepassados com a vida na terra prometida, terra da cucagna e de sonhos realizados.

Chegando em Caxias do Sul, depois de morar em Santa Catarina e na Califórnia, tudo aqui me pareceu muito diferente, e na prática sim, (quase) tudo é deliciosamente diferente.

Mergulhar na cultura Italiana da Serra Gaúcha me fez:

  • Odiar a culinária italiana. Sim, porque engordei muuuitos quilos depois que vim para cá. Os pratos são deliciosos, encorpados e fartos. Hoje estou almoçando, com um brodo em andamento no fogão para o dia seguinte e já preocupada com o que cozinhar para depois de amanhã. Virei uma mamma, ou nonna!
  • Entender que você casa com a família inteira – não que isso não seja verdade em outras etnias e lugares, mas aqui a proporção e intensidade são tão profundas quanto as raízes que os gringos criam com a terra.
  • Ter vontade de aprender a falar italiano, com a boca e especialmente com as mãos (adoro!!). Entender os dialetos, o Talian e as expressões é um plus a mais Porco Zio!
  • Não se ofender quando alguém perguntar “Maaá de que família que tu é??”. As pessoas só querem descobrir se estudaram com teu pai ou se a vizinha da prima do cunhado é teu parente.
  • Exercitar a paciência dirigindo. Não sei se tem alguma coisa na água da cidade, mas sempre tem alguém que não anda quando o sinal abre, e acelera depois que fecha. Quem tem uma explicação pra isso?
  • Ter que torcer pra um time da cidade, o que é lindo, menos pelo fato que meu time, o Figueirense, é arqui-inimigo-rival do SER Caxias.
  • Esquecer que o litoral catarinense existe. Praia de verdade é Curumim, Arroio do Sal, Paraíso e Torres. Em Santa Catarina só se for Bella Torres. E se prepare, a Rota do Sol e da Polenta, principal acesso às praias, vai testar sua paciência, carro e bolso.
  • Conhecer o bom humor italiano e a capacidade de rir de si mesmo, através do icônico personagem Radicci e do Grupo Ueba, que levou o Radicci e Genoveva para os palcos. Eu se fosse casada com um italiano desses já tinha enlouquecido ou fugido ou os dois!
  • Descobrir que a cidade com fama de ser essencialmente industrial tem museus, casa de cultura e lugares lindos sim. O Moinho da Cascata é um passeio que não canso de repetir. Perto tem o grande ABC _ Ausentes, Bom Jesus e Cambará, sem esquecer de Jaquirana e São Francisco de Paula. Pro outro lado tem o Vale dos Vinhedos, e pro outro Antônio Prado. Tá bom assim ou quer mais?
  • Me admirar de como o povo aqui gosta de trabalhar! Nunca vi tanta casa que também tem um comércio, que também tem alguém que faz alguma atividade extra. Canso só de olhar.
  • Gostar do frio, porque chama a vontade de tomar vinho. E aqui se toma o melhor. E o suco de uva? E o espumante? Tá loco, bom demais! Deus eu não sei, mas Baco é brasileiro e nasceu na Serra Gaúcha, certeza.
  • Me revoltar em alguns momentos. Não sei se por uma necessidade do passado, as árvores não tem o seu devido valor reconhecido. São tratadas como os coadjuvantes do filme Massacre da Serra Elétrica: Morrem cedo e fazem falta pra ajudar a proteger quem ficou.
  • Conhecer a Festa da Uva e toda indústria econômica e cultural que ela movimenta. Mas acima de tudo, visitar o local do primeiro meme ao vivo do Brasil: Lasier & As Uvas Eletrizantes, um clássico.

Obviamente esqueci de várias coisas, mas com certeza essa cidade grande com jeito de interior me ensinou muitas coisas, me apresentou pessoas incríveis e nunca mais vou cozinhar ou olhar pra uma balança do mesmo jeito.