
Na semana do Natal, uma cena chamou atenção em um aeroporto brasileiro.
Uma mulher apareceu afirmando que aguardava a chegada de Brad Pitt para o próprio casamento. Não era uma performance artística, nem uma ação promocional. Era, para ela, real.
Ver para crer não funciona mais!
A cena rapidamente saiu do saguão e ganhou as redes. Vieram os memes, os comentários, a comoção coletiva — entre o riso, o espanto e a incredulidade. Em poucos dias, o nome de Brad Pitt explodiu novamente nos mecanismos de busca e nas interações sociais. Plataformas de tendência registraram picos abruptos de interesse, com volumes de busca e engajamento muito acima da média recente, impulsionados não por um filme ou prêmio, mas por uma narrativa improvável.
O episódio diz menos sobre celebridades e mais sobre nós.
Durante séculos, aprendemos uma regra simples para navegar o mundo: ver para crer. O contato direto, o encontro físico, o testemunho ocular eram filtros naturais de realidade. O problema é que esse filtro envelheceu — e o mundo mudou mais rápido do que nossa forma de validar o que é verdadeiro.
Hoje, não é mais preciso estar diante de algo para que ele pareça real. Basta uma história bem contada, um print, um perfil convincente, um fluxo de confirmação social. A tecnologia não criou a ingenuidade, mas escalou sua capacidade de se espalhar.
O caso do aeroporto virou meme porque é extremo. Mas ele é apenas a ponta visível de um fenômeno cotidiano: pessoas acreditando em golpes sofisticados, líderes confiando em dados sem questionar a origem, profissionais tomando decisões baseadas em telas, não em contexto. A diferença é que, agora, o engano não precisa mais se esconder. Ele circula em alta resolução.
É aqui que o “ver para crer” entra em colapso.
No mundo atual, ver não é validar. E crer, sem questionar, virou risco operacional. Não apenas no digital, mas na vida pessoal, profissional e institucional. A tecnologia nos empurrou — gostemos ou não — para um novo modelo de sobrevivência cognitiva: desconfiar antes de confiar.
No vocabulário técnico, isso ganhou nome: zero trust.
Mas fora da tecnologia, isso é maturidade.
É entender que nem tudo que aparece é o que parece.
Que nem toda narrativa compartilhada merece adesão.
Que nem toda informação viral é verdadeira — apenas visível.
Os números ajudam a tirar isso do campo da anedota. Episódios virais como esse geram picos massivos de busca e interação em poucas horas, mostrando como a atenção coletiva pode ser sequestrada rapidamente por narrativas frágeis. O mesmo mecanismo que faz um nome explodir nos trends é o que sustenta golpes, desinformação e decisões mal tomadas quando não há filtro crítico.
No fundo, o dilema não é tecnológico. É humano.
Seguimos aplicando um modelo antigo de validação em um mundo que exige outro tipo de vigilância. Confiamos porque vemos — quando deveríamos ver, questionar, validar e só então confiar. O custo de não fazer isso já não é apenas emocional ou simbólico. É financeiro, reputacional e, muitas vezes, irreversível.
Talvez a pergunta que esse episódio nos deixa não seja sobre a mulher no aeroporto ou sobre celebridades.
Mas sobre nós:
em um mundo onde tudo pode parecer real, quem ainda está treinando a capacidade de desconfiar antes de acreditar?