
Quem trabalha com viticultura já se deparou com um problema recorrente e frustrante: cachos aparentemente bonitos, mas com bagas de tamanhos muito diferentes, fenômeno conhecido no campo como “bagoinha” ou “Shot berries”. Essa desuniformidade compromete o padrão comercial, reduz rendimento e dificulta a colheita e a classificação das frutas. Apesar de ser comum em várias regiões, muitos produtores ainda não entendem por completo o que está por trás desse distúrbio e, por isso, acabam repetindo erros de manejo safra após safra.
Diversos fatores podem desencadear a formação de bagas pequenas e mal desenvolvidas. Um dos mais importantes é o clima no período de floração. Temperaturas inferiores a 10 °C nessa fase prejudicam a fecundação das flores e limitam o pegamento adequado dos frutos. Além disso, excesso de chuvas durante a brotação e a florada interfere diretamente na polinização e no desenvolvimento inicial das bagas. Nessas condições adversas, o cacho se forma de maneira irregular, com frutos que não conseguem acompanhar o crescimento dos demais.
Outro ponto crítico é a nutrição da planta. A deficiência de boro é uma das causas mais frequentes desse problema, pois esse micronutriente está diretamente ligado ao processo de florescimento e fecundação. Plantas mal nutridas ou desequilibradas tendem a apresentar maior índice de bagoinha. Soma-se a isso a presença de viroses, que afetam o vigor das videiras e comprometem o desenvolvimento normal dos cachos. Não por acaso, cultivares como a Isabel comum e a BRS Vitória costumam ser as mais suscetíveis quando expostas a essas condições.
Para minimizar o problema, o produtor precisa adotar uma estratégia integrada. É fundamental optar por cultivares que não floresçam em épocas tradicionalmente chuvosas da região e que apresentem maior tolerância a adversidades climáticas. Trabalhar com mudas certificadas, livres de patógenos, também é decisivo para evitar que vírus e doenças comprometam a lavoura desde o início. A nutrição equilibrada, com atenção especial ao fornecimento de boro e outros micronutrientes, deve fazer parte do planejamento anual do vinhedo.
O manejo do solo completa esse conjunto de ações preventivas. Cultivar videiras em áreas bem drenadas, com boa estrutura física e cobertura verde permanente, ajuda a reduzir estresses hídricos e térmicos que favorecem a desuniformidade das bagas. Mais do que um detalhe estético, o controle da bagoinha é questão de produtividade e qualidade. Entender suas causas e adotar práticas corretas é o caminho para transformar cachos irregulares em colheitas mais rentáveis e consistentes.