Grupo de amigos sorrindo e olhando para seus celulares em um piquenique.
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Existem momentos em que duas cenas acontecem ao mesmo tempo, em lugares diferentes, e juntas dizem mais sobre o mundo do que qualquer relatório técnico. Em 2023, enquanto Suécia tomava uma decisão educacional silenciosa e estrutural, o Brasil seguia fiel a um ritual conhecido: mais uma temporada de entretenimento concentrando atenção, conversa pública e energia coletiva.

Não se trata de comparar países. Trata-se de observar comportamentos.

Na Suécia, a virada começou quando os dados passaram a incomodar mais do que a narrativa. Os resultados do PIRLS 2021 mostraram uma queda consistente no desempenho de leitura das crianças. Não era percepção, nem nostalgia pedagógica. Era evidência.

A resposta foi direta. Em agosto de 2023, a ministra Lotta Edholm anunciou a reversão da política que priorizava dispositivos digitais na pré-escola. Tablets deixaram de ser centrais. Livros de papel e escrita manual voltaram ao foco. Em setembro, com a reabertura das escolas, o mundo assistiu à decisão ganhar manchetes internacionais. O gesto não foi tecnológico. Foi humano.

A Suécia não “voltou ao passado”. Ela apenas reconheceu um limite: atenção, leitura profunda e construção cognitiva não escalam na mesma velocidade que interfaces digitais. Aprender exige fricção, silêncio, repetição e tempo — elementos que a tela tende a fragmentar.

Enquanto isso, no Brasil, a lógica dominante segue outra. A atenção coletiva se organiza em torno do espetáculo, do fluxo contínuo, da distração como norma. O BBB não é o problema. Ele é o sintoma. Um retrato de como nossa energia cognitiva é facilmente capturada, mantida e monetizada.

Aqui está o ponto central:
atenção é um ativo de governança.

Quem controla a atenção, influencia decisões, prioridades e comportamentos. Seja em uma sala de aula, em uma empresa ou em uma sociedade inteira. Quando a atenção se dispersa, a maturidade decisória cai. Quando tudo compete pelo olhar, quase nada sustenta profundidade.

O movimento sueco revela maturidade institucional porque aceita algo raro: desligar também é decidir. Reconhecer que nem toda inovação deve ser acelerada. Que, às vezes, o avanço está em proteger o básico para que o futuro não venha frágil.

Essa reflexão ultrapassa a educação. Ela ecoa no mundo corporativo, na política, na liderança. Quantas organizações confundem digitalização com progresso? Quantos líderes medem performance sem medir capacidade de atenção? Quantas decisões são tomadas para parecer modernas, não para serem sustentáveis?

Governança não é só regra, processo ou tecnologia. É a capacidade de dizer “não” quando o custo cognitivo começa a aparecer. É maturidade para escolher onde colocar foco — e onde retirá-lo.

Talvez a pergunta mais incômoda não seja por que a Suécia desligou as telas.

Mas por que nós, tão frequentemente, escolhemos ligar mais uma.