
A crítica à inteligência artificial é rasa quando não toca no ponto central. A IA não criou o pensamento terceirizado. Ela apenas revelou que já não pensávamos há muito tempo. Antes do algoritmo, o pensamento já havia sido domesticado pelo manual, pela banca, pela bibliografia obrigatória, pelo artigo indexado, pelo método intocável. A tecnologia apenas automatizou a repetição que a academia treinou.
O que hoje se chama de “formação” raramente forma raciocínio. Forma dependência. Ensina a citar, a repetir, a falar a língua oficial, a evitar o risco da ideia própria. O questionamento central nunca é “o que você pensa?”, mas: quem você cita para sustentar o que diz? Isso não é aprendizado. É adestramento intelectual.
O ponto que realmente dói — e por isso nunca é enfrentado: essa ideia é sua ou você apenas a reconheceu em um autor consagrado? Você chegou a essa conclusão sozinho(a) ou apenas a reproduz porque já foi legitimada? Se ninguém tivesse dito antes, você ousaria dizê-la?
A Terceirização do Pensamento e a Crise da Reflexão
Quando a reflexão precisa de autorização externa, ela deixa de ser reflexão, transforma-se em condicionamento e revela que quase tudo já foi terceirizado. A moral, fragmentada entre decisões judiciais e consensos instáveis. A verdade, entregue a especialistas. O sentido da vida, delegado a mentores ou discursos espirituais de mercado. A ciência, submetida a revistas financiadas. A educação, aprisionada a uma grade curricular engessada e orientada para a manutenção institucional e para a lógica da sobrevivência profissional.
Há uma regra silenciosa na academia, nunca escrita, mas rigorosamente aplicada: “Você pode pensar qualquer coisa, desde que não pense fora do que já foi pensado.” Por isso, ideias originais são taxadas de imaturas. Perguntas profundas, rotuladas de ingênuas. Pensamento livre, acusado de anticientífico. Espiritualidade reflexiva, descartada como não acadêmica.
O Sistema Cristalizado e a Repetição como Mérito
O sistema se cristalizou e deixou de formar pensadores; passou a formar repetidores certificados. A tragédia é que a repetição foi travestida de mérito. Quem repete bem é premiado, publicado, contratado. Quem pensa é isolado, desqualificado e aprende a silenciar. Assim nasce o pior tipo de ignorância: a ignorância com diploma. A academia não pode matar o pensamento — nem condicioná-lo a pedir permissão para existir.
Assim, quando a inteligência artificial entra em cena, ela apenas escancara o vazio. Se um algoritmo consegue repetir melhor do que nós, talvez nunca tenhamos sido treinados para pensar. Isso não é falha tecnológica. É falência epistemológica.
Este texto não é apenas uma coluna. É uma interpelação direta ao modelo vigente de produção do saber — não um ataque a indivíduos, mas aos mecanismos que o estruturam. Um convite incômodo à ruptura reflexiva e à revisão de um sistema que se tornou prejudicial ao livre pensar. Porque, no fundo, a pergunta que realmente precisa ser feita não é se ainda se pensa, mas se a renúncia ao pensamento crítico representa uma zona de conforto intelectual ou apenas um modelo cuidadosamente travestido de sustentabilidade financeira.