Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Agência Brasil
Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Agência Brasil

O Rio Grande do Sul encerra 2025 com uma economia em dois tempos: de um lado, o campo pressionado por mais um ano de estiagem, quebra de safra e endividamento; de outro, o turismo de verão ganhando fôlego em diferentes regiões, especialmente Litoral e Serra Gaúcha, ajudando a sustentar o setor de serviços e o emprego no Estado.

Campo vive um dos anos mais difíceis da década

Responsável por cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho, o agronegócio continuou sendo a espinha dorsal da economia, mas acumulou perdas relevantes em 2025.

A Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (FecoAgro/RS) classifica 2025 como um dos anos mais difíceis para a agricultura gaúcha, com estiagem prolongada, queda nas lavouras de milho e, principalmente, soja, baixa rentabilidade e dificuldade de acesso ao crédito oficial. O diagnóstico aponta ainda um endividamento crescente no campo, em um cenário de custos elevados e preços menores para os principais grãos.

Estudos econômicos ligados ao setor indicam que o PIB agropecuário do Estado deve fechar o ano com retração superior a 10%, com projeção de recuperação em 2026 caso a safra de verão confirme as previsões climáticas mais favoráveis.

PIB oscila, com agro em queda e serviços em compensação

No segundo trimestre de 2025, o PIB do Rio Grande do Sul caiu 2,7% em relação ao trimestre anterior e ao mesmo período de 2024, impacto diretamente ligado à quebra da safra de soja, principal cultura agrícola do Estado.

No acumulado até a metade do ano, análises econômicas apontam retração de cerca de 0,5% em relação a 2024, com a agropecuária em forte queda e indústria e serviços em território positivo, sustentados pela demanda interna, pela recuperação pós-enchentes de 2024 e por investimentos em reconstrução e infraestrutura.

Apesar da perda de ritmo no campo, o desempenho de segmentos como máquinas e equipamentos, comércio e serviços ligados ao turismo ajudou a evitar um tombo maior da atividade econômica ao longo de 2025.

Verão aquece turismo no Litoral e na Serra Gaúcha

Enquanto o agro sente o peso do clima e do crédito caro, o turismo entra em 2026 com sinal verde. Dados da Secretaria de Turismo do Estado e de observatórios do setor mostram que o fim de 2025 marca a consolidação da recuperação do turismo gaúcho após as enchentes históricas de 2024, com alta expressiva nas vendas de viagens e no fluxo de visitantes.

Para o verão 2025/2026, o governo projeta crescimento de cerca de 21,8% no volume de passageiros em aeroportos gaúchos e aumento próximo de 24% na chegada de turistas, na comparação com períodos anteriores. A Serra Gaúcha segue como principal polo receptor, concentrando entre 30% e 50% do fluxo aéreo que desembarca em Porto Alegre, com destaque para Gramado e Canela.

No Litoral Norte, hotéis e restaurantes vêm de “o melhor verão em cinco anos” na temporada 2024/2025, com aproximadamente 60% a mais de hospedagens, e projetam manter um bom desempenho na temporada atual, impulsionados pela volta de turistas argentinos e uruguaios.

Na Serra, eventos como Natal Luz, Sonho de Natal e programações de fim de ano lotam hotéis e pousadas. Em cidades como Nova Petrópolis, por exemplo, a taxa média de ocupação durante a programação natalina gira em torno de 85%, com projeção de chegar a 90% nas semanas do Natal e do Ano-Novo, reforçando a importância da região como motor do turismo interno.

Operação Verão Total amplia impacto econômico

Para aproveitar o potencial da alta temporada, o governo estadual colocou em prática a Operação Verão Total 2025/2026, vigente de 1º de outubro de 2025 a 15 de abril de 2026. A iniciativa mobiliza 39 órgãos e entidades e reforça serviços públicos em praias, lagoas, balneários e destinos turísticos, com foco no Litoral Norte e Sul, Serra, Fronteira e regiões de lagoas.

O plano atua em eixos como mobilidade, segurança pública, desenvolvimento econômico e bem-estar social, com reforço de efetivos da Brigada Militar, da Polícia Civil e dos Bombeiros, ações na área da saúde, monitoramento de estradas, postos de atendimento ao turista e agenda cultural nas principais praias e cidades turísticas. A expectativa é que essa estrutura ajude a prolongar a permanência dos visitantes e aumentar o gasto médio em hospedagem, alimentação, comércio e serviços.

2026 deve começar com contraste entre campo e serviços

A combinação de agronegócio fragilizado e turismo aquecido deve marcar o início de 2026 no Rio Grande do Sul. De um lado, produtores rurais entram no novo ano pressionados por dívidas, margens apertadas e a necessidade de uma safra cheia para recompor perdas recentes. De outro, hotéis, restaurantes, parques temáticos e atrações de verão projetam movimento forte até o fim da alta temporada, com impacto direto sobre emprego e renda em regiões como Serra Gaúcha, Litoral Norte e Sul.

Para o leitor, o cenário é de economia em transição: enquanto o campo ainda busca fôlego, o setor de serviços, puxado pelo turismo de verão, ajuda a manter dinheiro circulando no comércio local, preserva vagas de trabalho e dá algum alívio ao caixa de municípios fortemente dependentes da movimentação de veranistas e visitantes.