Pesquisa é importante para quem?

Quem critica bolsistas que reivindicam o pagamento dos valores atrasados esquece que pesquisa não serve apenas para produzir produtos

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11:16 - 09/12/2022

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Mais de 200 mil bolsistas da Capes ainda não receberam o pagamento

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil/Divulgação

É consenso o argumento de que a educação é o caminho mais racional para que o tão almejado desenvolvimento socioeconômico seja alcançado. Contudo, não parece claro, ao menos para algumas esferas da sociedade, que um olhar educador exige coragem. Educamos visando formar cidadãos ou funcionários?

A utilidade de determinados conhecimentos é frequentemente questionada. Os recursos destinados à capacitação são criticados. O investimento em educação é visto como gasto. A existência de pessoas que dedicam tempo exclusivo para estudar é desqualificada. Pesquisa é importante para quem?

Entre as palavras mais utilizadas no contexto econômico atual, destacam-se “inovação”, “ciência”, “pesquisa“, “tecnologia”. O termo “startup” já é jargão popular. Basta construir uma frase com alusão a algum destes vocábulos, que logo se vislumbra um futuro de progresso. Contudo, desconfio que quem descerra faixas Brasil afora desconhece o que tais conceitos significam.

Me refiro as críticas recentes sobre o atraso do pagamento das bolsas de pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O descaso apenas denota o que é fato: a desvalorização da pesquisa no Brasil. Entretanto, lembremos: o dispositivo que você utiliza para ler esse texto é fruto de pesquisa. A internet, que dá acesso às informações, também. O cartão de crédito que te possibilitou comprar eles, idem.

Quem critica bolsistas que reivindicam, democraticamente, o pagamento dos valores atrasados esquece que pesquisa não serve apenas para produzir produtos, mas sim, para auxiliar pessoas no exercício do pensamento crítico e na evolução pessoal. Recordemos: a incapacidade de pensar criticamente, de modo independente, não é exclusividade da atual geração. Ou seja, há décadas, a pesquisa brasileira segue de mãos atadas.

Questiono: até que ponto a dinâmica disruptiva do conhecimento é entendida, por governos e empresas, como algo que contribui para o desenvolvimento individual e/ou coletivo da sociedade? Na visão destes, o conhecimento é apenas um entrave que atrapalha a ágil domesticação dos potenciais clientes? Saber pensar deve romper a barreira do simples consumo (de conteúdo, inclusive). Infelizmente, ainda estamos longe de um debate sério em busca de alternativas viáveis que garantam a manutenção da pesquisa de alto nível no Brasil nas próximas décadas.

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