A paixão nacional e irracional

Não era amor, era cilada

Colunista
Vive entre Florianópolis, Califórnia e Caxias do Sul. Designer, publicitária, gestora e redatora de conteúdo web, produtora e viajante profissional. Escreve de tudo um pouco pra se divertir e economizar na terapia. Também faz o melhor pudim de leite das Américas. Espaço cedido à opinião da autora.
10:43 - 04/06/2024

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O dia começou tenso aqui em casa. Quando o time de futebol pra quem meu marido torce vai jogar, é sempre uma tortura. Ele fica nervoso demais, irracionalmente insuportável. Esse domingo foi diferente, na verdade foi um pouco pior do que o normal.

O time dele, do Rio Grande do Sul, ia jogar contra o time de Santa Catarina, com quem eu simpatizo desde a infância, e contra o qual ele tem um ódio gigante. Ou seja, nesse dia nos tornamos inimigos mortais pela ótica futebolística.

Futebol é sempre um assunto controverso. Tem os torcedores fanáticos, as tretas entre os jogadores e times, as histórias de cartolas e dirigentes, os salários milionários e as ilusões e delírios que o dinheiro provoca. A idolatria por pessoas que, em muitos casos, são um péssimo exemplo a ser seguido fora e dentro do campo. Não vou nem falar falando das condenações e acusações de casos de estupro, das sonegações de impostos, da ostentação, das tentativas de (mais) enriquecimento com empreendimentos favorecidos por legislações obscuras, entre outros.

Nos últimos dias, além da treta de um ex-jogador com uma atriz, o retorno dos jogos de futebol do Brasileirão deram um ar de quase normalidade para algumas partes do Rio Grande do Sul. Enquanto muitas pessoas se uniam para ajudar os afetados pela enchente, cenas de pura maldade e irracionalidade tomaram conta dos campos de futebol. Em um jogo contra o Grêmio, um torcedor de outro time imitou uma pessoa nadando, como provocação ao time do estado inundado. No jogo contra o SER Caxias, um torcedor do time catarinense imitou uma pessoa se afogando e iniciou uma briga no estádio. Não vejo explicação racional para essa correlação entre a tragédia e o suposto amor do torcedor por um time de futebol.

A idolatria é o extremo do exagero, a transferência de toda forma de amar para uma pessoa, ou time nesse caso. É mais que um óculos de lente cor-de-rosa, é um microscópio dentro de um telescópio, distorcendo, aumentando o que é bom e desfocando o que é ruim. É sim, uma espécie de escravidão guiada pela irracionalidade. E convenhamos, um time de futebol é uma receita de bolo onde os ingredientes mudam o tempo todo, ou seja, você está torcendo para um time diferente a cada fornada, onde quem tem mais dinheiro compra os melhores ingredientes e mesmo assim, nem sempre a receita dá certo.

Me intriga essa obsessão pelo futebol, esse momento em que deixa de ser diversão e felicidade e passa a ser um culto. Me intriga mais ainda a idéia de que você amar um time te faz imediatamente odiar todos os outros, e entre o amor e o ódio, o torcedor se sinta feliz menosprezando outros torcedores. “Do fanatismo à barbárie, não há mais do que um passo”, disse o filósofo francês Diderot. E se o ídolo é a imagem do que a pessoa gostaria de ser, então agora está tudo explicado.

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