
Mesmo com o passar dos anos, a dor e a saudade seguem constantes para a farroupilhense Rosaura Paraboni, de 70 anos. Ex-professora de matemática e orientadora educacional, ela é mãe de Ricardo Paraboni, morto na tragédia da Boate Kiss, há exatos 13 anos.
Em sua casa, no bairro São José, as lembranças estão em todos os lugares. De bom humor e de forma acolhedora, Rosaura recebeu a reportagem do Portal Leouve para reviver algo que nunca saiu de sua memória: o dia em que perdeu o filho mais novo.
A tragédia pôs um ponto final na vida de 242 pessoas e deixou mais de 600 feridos. O incêndio começou por volta das 2h30 do dia 27 de janeiro de 2013, um domingo, depois que a banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava naquela noite, utilizou sinalizadores durante um espetáculo pirotécnico. As faíscas atingiram a espuma do isolamento acústico no teto da boate, dando início ao fogo, que se espalhou pelo estabelecimento em poucos minutos. O incêndio provocou pânico, e muitos dos presentes não conseguiram acessar a saída de emergência.
Ricardo, irmão de Luiz Eduardo Custódio, é lembrado como alguém alegre, corajoso e extrovertido, bem diferente do irmão e da mãe, que levam uma vida mais retraída.
“Ele era pura vida. O Ricardo estava sempre pronto, chegava correndo e, daqui a pouco, já estava saindo, sempre a mil”, relembra a mãe.

Entre idas e vindas na carreira profissional, ele chegou a viver por um período na Inglaterra, depois voltou e concluiu a faculdade de Administração em busca de melhores oportunidades na empresa Grendene.
No dia anterior à tragédia em Santa Maria, Rosaura conta que o filho, que tinha 27 anos, aproveitava momentos com amigos no município de Júlio de Castilhos.
“A última vez que falei com ele foi na sexta-feira à noite, quando ele já estava viajando. Ele me disse: ‘mãe, não se preocupa, porque eu estou de carona’. Cerca de uma semana antes, ele estava com o carro que a gente dividia e acabou batendo em uma árvore”, recorda ela.
No dia do incêndio, Rosaura retornava da praia de Capão da Canoa e só soube da tragédia durante a manhã, por meio de um telefonema de um amigo do filho.
“Quando a gente saiu de lá, no dia 27, não ligamos a televisão nem nada. Eu também não sabia que ele estaria na boate naquela noite, quem sabia era a nossa funcionária aqui de casa”, afirma.
Ao chegar em casa, Rosaura encontrou os pertences de Ricardo prontos para uma viagem de trabalho, marcada para o dia seguinte, em São Paulo.

Com um carro alugado, ela e mais três familiares seguiram até Santa Maria em busca de informações. A confirmação da morte de Ricardo chegou por meio de uma amiga, que também acompanhava a situação.
Um dos momentos mais difíceis lembrados por Rosaura foi a chegada ao ginásio do Centro Desportivo Municipal de Santa Maria.
“Eu sempre digo que aquilo parecia um cenário de guerra. Tinha voluntários entregando água e lanches, enfermeiros, médicos. Quando eu entrei, no chão estavam todos aqueles corpos nos sacos pretos”, relembra emocionada.
Após os trâmites legais, o corpo de Ricardo chegou a Farroupilha na segunda-feira (28). Houve a cerimônia de despedida, que reuniu um grande número de pessoas, e, posteriormente, o corpo foi cremado.
O caso resultou na condenação de quatro réus: os sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr (Kiko) e Mauro Londero Hoffmann, e os integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Bonilha Leão (vocalista) e Marcelo de Jesus dos Santos (produtor musical).

Em agosto de 2025, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) reduziu as penas aplicadas aos quatro condenados, que anteriormente variavam entre 18 e 22 anos de prisão. Os réus obtiveram progressão para o regime semiaberto conforme o cumprimento da pena.
“A gente sabe como a Justiça funciona no Brasil. Eles prendem e soltam, então infelizmente isso acaba sendo normal. Eu não acho justo que tantas pessoas tenham perdido seus filhos”, desabafa Rosaura. “Não sei se é uma questão de perdoar, talvez até seja, mas a mágoa fica. Eles não fizeram por querer, claro, mas a revolta é grande, porque algo foi feito de forma errada para que aquilo acontecesse”.
Agora, 13 anos depois, a ausência de Ricardo segue presente em cada detalhe da casa e da memória da família. Para Rosaura, o tempo não apaga a dor, apenas ensina a conviver com ela, enquanto a busca por justiça continua sendo uma ferida aberta para quem perdeu um filho naquela madrugada.