Retorno às raízes: Moradores de Galópolis voltam para casa após evacuação por risco de deslizamento de terra

No retorno, casas danificadas, vias obstruídas, lama, detritos e infraestrutura comprometida. Apesar dos danos materiais, sentimento de gratidão pela vida predomina na comunidade

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19:15 - 23/05/2024

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Foto: Marcelo Oliveira/Grupo RSCOM

Depois de terem sido evacuados dos locais onde moram, tendo em vista as consequências do desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul desde o início de maio, moradores de Galópolis, em Caxias do Sul, começaram a retornar para suas casas nesta semana. O motivo da saída das residências foi o risco de queda de barreiras e deslizamentos de terra em uma área do perímetro urbano, que em parte segue interditada. A comunidade foi muito afetada pelo desastre natural – tendo havido sete mortes e um desaparecimento – que deixou um rastro de destruição e incerteza.

Os primeiros dias foram marcados por cenas de devastação e um clima de medo. Muitos moradores ficaram desabrigados, encontrando refúgio em abrigos temporários ou na casa de familiares e amigos. A volta para casa, no entanto, trouxe um misto de alívio e apreensão.

Ao retornarem ao lar, as famílias se depararam com diversos desafios. Casas danificadas, ruas cobertas de lama e entulhos. Além disso, uma infraestrutura comprometida, que exige esforços significativos de limpeza e reconstrução. Apesar das perdas materiais, o sentimento predominante é de gratidão por estarem vivos e prontos para recomeçar.

ELISANDRO FOCHESATO – MORADOR DA RUA PAULINO CHAVES

Há 13 anos, ele mora na via, interditada por ser considerada área de risco. Elisandro relata que está afastado de casa há cerca de 20 dias. Recentemente, voltou para limpar a residência e avaliar as perdas. Durante a enxurrada, o nível de água dentro da casa chegou a 40 cm, danificando alguns móveis. Ele quer apenas tornar a casa habitável novamente. Elisandro, que mora com a esposa, duas filhas e a sogra; conta que no momento da evacuação, a família pegou algumas roupas e foi para um apartamento cedido por amigos, no bairro São Ciro.

 

LOURDES BASSO – MORADORA DA RUA BATISTA TISSOT

Moradores antigos, como Lourdes Furlan Basso, de 73 anos, nunca tinham testemunhado um desastre dessa magnitude. "Sempre foi um lugar bom para morar. Agora, precisamos estar preparados para qualquer coisa no futuro", refletiu.

Moradores antigos, como Lourdes Furlan Basso, nunca tinham testemunhado um desastre dessa magnitude.

Lourdes tem 73 anos. Ela é moradora da Rua Batista Tissot, há mais de 50 anos, e relata que nunca viu um desastre como este. Sem tempo para recolher nada, se refugiou em sua chácara, em Galópolis. Durante o temporal, um familiar acabou quebrando o braço.

“A volta para casa foi alegre, pois, apesar dos danos, nosso teto estava intacto, o que já nos confortou. Após tantos dias com a casa fechada, a água que entrou deixou tudo escuro, incluindo as paredes. Na evacuação, tudo aconteceu de repente. Os bombeiros e policiais nos mandaram sair da cama imediatamente, sem tempo para juntar nada. Eu fui para minha chácara em Altos de Galópolis, que é mais alto. Meu genro quebrou o braço durante a tempestade, ao se assustar e escorregar enquanto fechava uma janela. Moro aqui há 53 anos e nunca vi algo assim. Sempre foi tranquilo e um bom lugar para morar. Gosto muito do meu cantinho, mas agora as coisas estão ficando difíceis. Pelo que vejo, é preciso estar preparado para qualquer coisa no futuro.”

 

HENRIQUE RIGON – MORADOR DA RUA PEDRO CHAVES

Henrique e o filho Vicente de 2 anos, tiveram que sair de casa por estarem na área de risco

 

Aos 34 anos, Henrique nasceu e foi criado na comunidade de Galópolis. Ele está assustado com o cenário que presenciou. Morador da Rua Pedro Chaves, próximo ao Morro do Cemitério, relata que sua casa não foi atingida pelo temporal. Mesmo assim, Henrique procurou ajudar os necessitados da região.

“Graças a Deus, nossa área foi liberada e não fomos atingidos. Nossa casa e trabalho estão intactos, mas muitas famílias infelizmente não poderão retornar. Agradecemos por estarmos vivos e por podermos ajudar os outros. Nos primeiros dias, o barulho dos bombeiros e dos desmoronamentos causou pânico. Ficamos sem luz, internet e sinal, em uma escuridão interrompida apenas por estrondos. Foi um pavor, especialmente com um filho pequeno. Infelizmente, tivemos algumas vítimas fatais no bairro, conhecidos nossos, o que foi uma tragédia. Levei minha família para a casa do meu sogro no bairro São Leopoldo. Nesse meio tempo, para ocupar a mente e como não podíamos trabalhar, decidimos ajudar. Colocamos uma Kombi na frente de um atacadão e começamos a abastecer o nosso bairro. A iniciativa cresceu além do que imaginávamos, com muita gente de fora vindo ajudar e unindo forças”.

Galópolis foi o bairro mais atingido pelas chuvas fortes que caíram desde o dia 30 de abril. Foram registradas sete mortes e uma pessoa ainda segue desaparecida.

Mais da metade dos moradores estava fora de casa até esta quarta-feira (25). São cerca de 260 famílias, a maioria abrigadas em casa de familiares e amigos.

O retorno dos moradores simboliza a resiliência e a esperança de um novo começo, apesar das adversidades. A solidariedade demonstrada durante e após o desastre reforça os laços da comunidade, mostrando que, juntos, são capazes de superar os desafios mais difíceis.

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