Sindicatos, aplicativos e máquinas de gelar água

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Na semana passada participei, com um grupo de convidados, do lançamento de um aplicativo que vai conceder descontos médios de 15% nas compras realizadas por quem se dispuser a pagar uma módica taxa. Os desenvolvedores garantem que por simulações feitas, o usuário poderá reduzir seu custo de vida exatamente em aproximadamente 15%, basta para tanto solicitar o desconto ao dono do estabelecimento que concordou em participar da rede de negócios.

Nas caminhadas que faço com menos frequência do que gostaria, costumo passar pela rua Xingu, ali na praça Achyles Mincarone, ou a praça da igreja em forma de pipa lá tem o Icehot. Uma máquina que oferece água gelada de um lado e água quente de outro. Baita tecnologia né? Claro que não. Porém há dois fatores que me fazem trazer estas inovações a estas linhas que escrevo: ambas partem do princípio de que é preciso facilitar a vida das pessoas (haverá invento que não tenha este propósito?); os dois inventos são de empreendedores locais. Gente nova se desdobrando para ganhar a vida e, quiçá, fazer fortuna.

Vida de empreendedor não é fácil. Os dois inventos podem dar certo e ganhar o Brasil inteiro, como imponderáveis podem surgir e derrubar os sonhos de quem os concebeu. Os dois inventos, assim como o Air BNB, o Uber e assemelhados, e outros aplicativos, são formas novas de ganhar a vida. Não tem sindicato e não tem segurança de carteira assinada.

E chego onde desejava: o Brasil tem hoje mais de 12 milhões de desempregados. Culpa do PT apenas em parte. Outro tanto é simplesmente o andar da carruagem. Os empregos já não são como eram. Está aí a Ford fechando fábrica, a GM ameaçando sair.

Vivemos, lá no meio do século 20, uma revolução no Brasil que era dos grandes latifundiários, e dos arigós descalços. Getúlio implantou a CLT, Jango caiu porque traiu os fazendeiros ao pensar na reforma agrária. O Pais dos Pobres teve seu tempo. A última grande luta neste sentido foi do senador Paim propugnando um salário mínimo de 100 dólares. Novas lutas viriam mas, eis que estão sendo engolidas pela pressa da tecnologia, por novas relações de trabalho e de as pessoas se sustentarem.

A reforma trabalhista chegou e ainda não está totalmente compreendida. Mas era necessária e certamente veio com atraso. Os sindicatos de trabalhadores resistiram, mas estão sendo atropelados pela realidade dos fatos e pelo decreto de Jair Bolsonaro, assinado justo na véspera do carnaval. Não houve tempo para reação.

Os sindicatos, subsistirão. Ainda serão necessários, talvez mais do que nunca. Mas precisarão perder muito do seu viés político. Ou os sindicatos se fazem entender e os trabalhadores compreendem, ou perderão ambos.

Só daqui a 20 anos saberemos se os movimentos ora vividos eram necessários e vieram na dose necessária. O certo é que após 14 anos de um governo protecionista e comandado por sindicalistas, veio a hora da virada. Para muitos veio com atraso enorme e injustificável. Para muitas pequenas empresas o prejuízo é irrecuperável diante de leis trabalhistas e cálculos recisórios kafkianos.

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