“O fundamental é quem vai poder concorrer”, diz Juremir Machado sobre eleições

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Já virou rotina. Pelo terceiro ano consecutivo, Juremir Machado subiu a Serra Gaúcha para falar sobre as relações entre poder e mídia. Na última quinta-feira, dia 5, o jornalista, professor universitário, tradutor e escritor esteve na Câmara de Vereadores de Caxias do Sul a convite do Coletivo de Comunicação Alternativa – grupo de profissionais caxienses, onde uma plateia de aproximadamente 200 pessoas ouviu as análises de Juremir sobre o atual momento político brasileiro.

Antes do encontro, ele conversou com a reportagem do Portal Leouve e afirmou que a candidatura ou não do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como algo central na conjuntura política brasileira. Além disso, Juremir também falou sobre os pedidos de intervenção militar, as fake news e como ele acredita que a mídia se posiciona nesse contexto.

Ouça a entrevista na íntegra:

Repórter: Juremir, temos muitas mudanças no cenário político brasileiro, no cenário político latino-americano nesses últimos tempos. Qual o papel da mídia, o que a mídia tem feito nesse cenário e qual o é o objetivo do encontro de hoje?

“A ideia é discutir sobre como a mídia exerce poder. A gente sabe que a mídia tem poder e que esse poder é exercido de maneira diferente conforme as sociedades e até conforme as épocas. Em princípio, houve uma época em que a concentração de poder nas mídias era muito grande e se imaginou que com a internet e as redes sociais que essa concentração diminuiria. E nós estamos de fato passando por uma transformação muito grande, as redações estão encolhendo, o mercado jornalístico está se modificando, mas por enquanto as mídias ditas hegemônicas continuam tendo um poder imenso, e um poder que elas fazem questão de exercer, principalmente no que se refere a política. Então quando a gente olha os acontecimentos brasileiros dos últimos anos, de 2015 pra cá, a gente vê que em todos os processos acontecidos, como a destituição da presidente Dilma, a mídia teve papel muito forte. Ela atuou de maneira contundente. Legitimando processos, cobrando, desconstruindo reputações, então é um movimento paradoxal. Por um lado, há tanta tecnologia disponível, mas a concentração naquilo que é decisivo ela continua muito elevada. É um paradoxo mesmo: por mais que as pessoas estejam fazendo muitas coisas e já não assistam o jornal da rede globo como viam antigamente, a força que esse tipo de mídia tem continua muito alta. Se disser que um político qualquer é corrupto no Jornal Nacional, isso vai se viralizar. A reputação dele, certa ou errada, corrupto ou não, ela vai se desmontar. Então nós temos, mesmo com perda de audiência, que é real, ainda há um poder de produção, de veiculação e de desencadeamento de uma notícia muito grande nessas mídias. Que é um poder que ainda precisa ser relativizado.”

Repórter: A gente vê muito desencadeamento na informação. As vezes há o processo em que a informação começa nas mídias alternativas e chega a um ponto que não pode ser ignorada pelas mídias tradicionais, mas geralmente acontece o contrário. A mídia tradicional dá determinada informação e mesmo as mídias que falam que aquilo não aconteceu acabam sendo pautadas. É um pouco também nesse sentido?

“As redes sociais funcionam muito mais como disseminadoras do que como produtoras. Boa parte daquilo que trafega nas redes sociais é material replicado de grandes mídias. Folha de São Paulo, o Globo, o Estado de São Paulo. Constantemente a gente vê no twitter, no instagram ,que eles são replicados. E também tem o problema das fake news. O que não é produzido por esses grandes portais fica sob desconfiança, porque nas redes sociais têm muita coisa falsa. O sujeito pensa assim: isso é verdadeiro ou é falso? Como vou fazer para acreditar. Ele acaba dizendo, vou entrar em um portal porque é mais garantia que de que tenha sido checado. Então, as redes que deveriam democratizar, e nos liberar, e nos dar alternativa, elas ficam sob desconfiança e nós acabamos sendo empurrados para os meios tradicionais. Que, se checam as coisas, e checam, em todo caso, eles selecionam. Muitas coisas que nos interessariam, eles não dão”

Repórter: Acredito que as fake news se propagam porque tem uma construção semântica muito bem feita. E outra parte porque elas falam um pouco aquilo que as pessoas querem acreditar. Tu concorda?

“As fake news são produzidas dentro do padrão jornalístico mais estrito possível. Tu olha uma manchete de fake news, é uma manchete perfeita. Daquelas que a pessoa se sente compelida a clicar, querer saber o que é. E, de fato, o principal é que, é falso, mas é aquilo que as pessoas gostariam que fosse verdadeiro. Pega qualquer exemplo, como a capa da Forbes, que tanto circulou dizendo que o Lula era um dos maiores milionários do Brasil. As pessoas queriam acreditar que fosse e de certa maneira elas construíram e confirmaram essa ideia. Porque mesmo que Lula não seja um milionário, ele acabou sendo condenado por ter em princípio, entre aspas, enriquecido ilicitamente. Então a fake news, de certa forma, antecipa aquilo que as pessoas gostariam que fosse e em alguns casos ela faz com que o falso vire verdadeiro”

Repórter: E esses pedidos de intervenção militar, qual é o papel da mídia nesse contexto. E o que a população quer dizer quando pede uma intervenção militar?

“O que eu acho importante é o seguinte: são grupos, pessoas. É uma parte minoritária e isso me parece um ponto muito importante. Se fizer uma pesquisa, a maior parte da população brasileira não quer uma intervenção militar. Alguns indivíduos, alguns grupos querem e eles conseguem fazer um certo barulho nas redes sociais, mas isso felizmente não corresponde a uma vontade majoritária da população. A mídia em geral não apoia. Nós não vamos encontrar editoriais dizendo que é uma boa ideia. Então, neste sentido, há uma espécie de movimento que vai na contramão daquilo que a sociedade como um todo quer e do que a própria mídia legitima. Eu creio que são pessoas que simplificam, pessoas que simplificam muito as coisas acreditando que soluções muito fáceis aparentemente claras resolveriam as coisas. Mas pessoas que examinam com mais seriedade dizem que não vai funcionar, não é por aí. É tão contraditório que se poderia dizer, bom, é a minoria, mas um sujeito como Jair Bolsonaro que não esconde sua admiração pelo regime militar lidera as pesquisas de opinião quando não tem o nome do Lula. Mas a liderança do Bolsonaro deve ser bem relativizada porque tem um outro dado fundamental, que é: 64% das pessoas entrevistadas não tem candidato definido. Ou seja, primeiro o Bolsonaro é segundo quando tem o Lula, mas quando não tem o Lula, ele lidera sob uma camada muito pequena da população que já tem a sua definição. Conclusão: a liderança do Bolsonaro é uma liderança no fundo muito minoritária. Então eu acredito que nessa confusão toda as pessoas estão meio perdidas, desencantadas, confusas, mas a maioria da população brasileira quer mais democracia, não menos democracia”

Repórter: E as eleições desse ano. O que esperar? Tivemos três anos em que boa parte da população acredita que houve um combate efetivo à corrupção. Tu acredita que essa eleição vai representar algum tipo de mudança grande?

“Isso é muito difícil dizer. As empresas nessa eleição não podem doar como empresas jurídicas, mas isso não quer dizer que elas não vão fazer de maneira ilegal. Isso não quer dizer que elas não vão colocar dinheiro em um ‘caixa dois real’, ilicitamente. Que mecanismos elas vão encontrar para fazer isso eu não sei, mas é muito provável que isso aconteça. Por outro lado, a nova legislação permite que candidatos ricos financiem a própria campanha, então há um autofinanciamento que está permitido. E isso vai facilitar a vida de quem tem poder econômico e pode tirar do bolso e bancar sua própria campanha. Também, o financiamento, que agora ficou pelo fundo partidário, é muito complicado. Porque os caciques do partido controlam o dinheiro e vão colocar em quem eles quiserem. Isso, ao que tudo indica, vai dificultar uma renovação da câmara. Porque voto, no fundo, está ligado a dinheiro. Quem tem mais dinheiro, normalmente faz mais votos. Exceto quando é uma pessoa de muita visibilidade que faz votos pela sua visibilidade, e normalmente não chega a ser interessante. Por exemplo, o Luciano Hulk, se ele se candidatar vai fazer muitos votos sem precisar gastar nada, porque ele tem visibilidade. Na maior parte do tempo os candidatos que se elegem são aqueles que investem mais na campanha, e aqueles que vão ter mais dinheiro para a campanha e os que vão ter mais dinheiro para campanha são aqueles que controlam a cúpula dos partidos, que são aqueles que vão ter o maior quinhão no fundo partidário. E isso é bem problemático, porque num momento como esse talvez se quisesse uma boa renovação dos parlamentos. Uma renovação de 50%, 60%, talvez até mais, 80%, e os especialistas dizem que talvez a gente tenha uma renovação de 10%, de 15%. Eu espero que eles estejam enganados. E eleição está muito vinculada a financiamento. Nós não encontramos uma forma adequada de financiamento. A que tínhamos que era do financiamento pelas empresas resultou na corrupção toda que nós tivemos por aí, que no fundo era uma corrupção no fundo ligada a financiamento eleitoral, então aquela maneira não era boa. Essa, que se encontrou, a do fundo partidário, também não é boa. Talvez pra ser melhor tivesse que ter voto em lista fechada, mas voto em lista fechada em um país como um Brasil também é complicado, porque aí os caciques organizam a lista de acordo com o interesse deles e bloqueiam uma possibilidade do eleitor escolher fora daquela ordem. Vai precisar, e a ciência política tem munição pra isso, encontrar uma forma mais sofisticada. Então, a eleição deste ano vai ser afetada por todos esses aspectos. Mas, o fundamental é o seguinte, na eleição presidencial, quem vai poder concorrer? A grande questão é: o Lula vai poder concorrer ou não? Se ele puder concorrer, ao que tudo indica ele vai ganhar, mas eu tenho sérias dúvidas que permitam que ele concorra”.

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