Bolsonaro, a velhinha e as fake news

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A Dinda tinha seus 87 anos, não sabia ler nem escrever mas se mantinha lúcida e bem informada pela TV. Adorava um jogo de futebol, ou vôlei ou basquete ou o que fosse, desde que pudesse torcer. Imagino de que lado estaria nesta eleição (acho que do Álvaro Dias, diria “aquele jovem é tão elegante”)…

Aí um dia, lá pelo início dos anos 90 – ela já não está aqui pra me dizer a data com exatidão – os carros amanheceram cobertos de cinza e não sabíamos do que se tratava. Quando chegamos pro almoço de feriado ela foi logo explicando: a cinza vinha de um vulcão que entrou em atividade, lá em Caxias.

Logo vimos que não podia ser, afinal, a fonte não era das mais confiáveis e nunca havíamos ouvido falar de vulcão em Caxias. Mais tarde soubemos que tinha, sim, um vulcão em atividade lá no Chile e que os ventos trouxeram as cinzas pra cá. Em Caxias ficava a retransmissora da RBS que dera a notícia. Só agora, muitos anos depois, soube pelo professor Mattana que em Caxias há um vulcão, mas sem registro de atividade recente.

O assunto no painel Falando Sobre lá na Casa das Artes era o impacto das fake news. Divagamos sobre origem, interesses, como identificá-las, etc. De fato, quem quiser pode se livrar de cair na cilada das notícias falsas. Pra isto basta não estar distraído ou não ser preguiçoso e estar atento pra desconfiar da notícia bombástica – não que notícias chocantes não acontecem, são mais raras e é por isso mesmo que as fake costumam ser mais atrativas do que a realidade. Pra não cair em cilada e sair reproduzindo falácia o melhor é checar em sites noticiosos de reputação, porque até o teu amigo bem informado pode engolir uma fake eventualmente.

A fake pode ser um pouco de desinformação misturada com fatos reais. Bolsonaro falando de kit gay e congresso de LGBT na infância é isto: verdade com pinceladas de hiper-realismo. Mas a fake news pode ser pura e simples mentira. Alguém escolhe um alvo, tem um propósito e crava mentira que se multiplica na velocidade da luz.

Gostei de uma frase que vi por aí. As fake são um efeito colateral das redes sociais. De fato, a mentira não nasceu com a internet e com as redes sociais, mas quem duvida ser um terreno fértil pra mentir, e colocar pra fora o que o cara tem de pior, afinal, gosto é gosto.

As empresas que dominam este mercado, Google, facebook e outras, não deviam estar preocupadas com os efeitos deletérios das invenções que enriqueceram seus criadores e nos jogaram num mundão de fofocas e vaidades. Cabe a cada um se proteger como puder. Só não pode andar distraído, porque o acaso não vai te proteger, vai destruir tua reputação

Pra encerrar, outra da Dinda. Teve o julgamento da Paula Tomaz e do Guilherme de Pádua, que mataram a atriz Daniella Perez. Chegamos pro almoço e a nossa informante conta que o casal de assassinos havia se beijado em pleno salão do Júri. Impensável. Só acreditei mais tarde quando vi a cena na TV. Então, desconfiar é preciso, mas nem tudo que parece mentira é.

 

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